8.2.10
Cansaço vii)
4.2.10
Música xxxvi)
3.2.10
Fado da Vida,
Todos tão pequeninos
Descalços pela calçada
Sou o caminho que salta
E que leva a malta
P’las curvas da estrada
Sou o sopro do vento
Que nascido ao relento
Lava a cara molhada
Sou o poema salgado
Que é o bailado
Das ondas da madrugada
Sou a flor estrangeira
Que nasceu trigueira
No meio do nada
Sou o escorrer dos sonhos
Mais ou menos risonhos
Nos olhos da criançada
Sou a gaveta que tem
O mal e o bem
Desta vida cansada
Sou o amor que estremece
Num acorde maior
Gemido da guitarrada
Sou o fado da vida
Sempre de fugida
Cantado à desgarrada
Sou o cheiro da festa
Que quando começa
Já está acabada.
(Publicado no "Adeus, até ao meu regresso")
28.1.10
26.1.10
Antes do pós
25.1.10
iPod, Shuffle Mode
23.1.10
O Banco de Jardim
22.1.10
Tenho a assinalar que
19.1.10
O Encontro
Caramba, que me dói a barriga. Sinto-me preso dentro de uma marioneta bizarra que vai atirando os pés para a frente num andar afectado de quem tem por hábito passar o dia sentado. O meu corpo é um lugar estranho, desconcertante, assustador. Sinto-me vítima duma jigajoga de contornos perversos. Agora estou a suar das mãos. Quero parar de suar das mãos, ela vai reparar quando agarrar nas flores, vai notar que o jornal que as envolve está ensopado, vai ter nojo de mim, de certeza. Agora da testa, sinto as gotas todas, todas únicas, sei contá-las e ordena-las por tamanho, consigo adivinhar qual vai escorrer a seguir em direcção às sobrancelhas. Porra, à sobrancelha, que é só uma.
Queria saber andar como os heróis dos filmes, quando estão de costas para as explosões, com toda a confiança do mundo, ao ritmo de uma música composta a pensar naqueles passos. Queria ter as mãos firmes como as de um cirurgião, experimentadas como as de um pescador e esbeltas como as de um pianista, queria sobretudo que não ensopassem o jornal que envolve as flores.
Os meus óculos embaciaram, lá fora estava demasiado frio e aqui dentro está demasiado calor, nem vou conseguir vê-la dobrar a esquina do corredor. Ela vai achar que eu sou só parvo, vai chamar-me à atenção e eu nem vou reparar como ela disfarça mal a impaciência, e nem sequer vai ser porque vou estar a tentar escutá-la por cima das reclamações do meu estômago, mas sim porque a concentração exigida para não deixar descair o queixo me vai dar pano que chegue para muitas mangas.
Caramba que me dói a barriga. Sinto-me preso dentro de um sonho mau, daqueles em que queremos correr, para fugir de alguém ou para chegar mais depressa a algum lugar, mas as nossas pernas vão ficando cada vez mais lentas, cada vez mais pesadas, como se não fossem nossas, como se fossem desconhecidas e indiferentes.
Sossega, eu estive mais de cinco minutos para conseguir vir ter contigo, parece que tenho um cavalo a galope no peito, segredou-me ela. Se o meu corpo fosse obediente à minha vontade, eu tinha dado um pulo de surpresa. Fiquei-me pelo sorriso, Trouxe flores para ti.
São lindas.
(texto escrito para o "Adeus, até ao me regresso".)
13.1.10
9.1.10
Para despertar, há que adormecer primeiro?
Amanhã vou rebolar até se acabar a manhã e vou perder tempo demais a assistir à luta que a consciência vai travar com a apatia, recorrência que não é mais que a minha receita preferida para o insucesso.
E já agora, que me ficou atravessada a mancha na esmerada eloquência do texto, as razões nunca se danam, o nosso subconsciente é que se entretém a ignorá-las, sobretudo quando elas só vêm complicar as contas, porque a verdade é que as razões são o coração, o pulso, das acções.
Aproveito e acrescento a minha nota ao que o Newton nos ensinou: Para cada acção há, não só uma reacção, como também uma razão, sendo que esta última pode não gostar de ser calculada.
8.1.10
Música xxxii)
29.12.09
Só mais um ano.
Não consigo dormir, apesar de já ter tudo conforme o plano. A única coisa que falta é comprar o toucinho. Eu sei que todos eles adoram as tâmaras bem enroladinhas, numa trouxa de toucinho sem gordura nem plásticos, presa por um palito. Na mercearia garantiram que aquelas eram as melhores tâmaras de Lisboa, deram-mas a provar, sem desconfiarem que eu não sou de cerimónias, e o facto é que, confiando na minha memória, são as melhores que me passaram pelo palato.
Isto já foi no inicio da semana passada, porque como me disse o mais novo no ano passado, Talvez aí passe para o ano pai, este ano vamos para o sul de França, e o mais velho em Setembro, Sim pai, talvez aí passe no Natal, e eu queria ter tudo a jeito para os receber, tanto que resolvi não esperar pelo telefonema de confirmação e comecei a aprumar as coisas para a consoada.
Não foram só as tâmaras e o toucinho, fatiado com um milímetro. Perdi duas tardes inteiras à procura do melhor bacalhau, para o levar ao forno com cebola em redução de Porto Branco e umas batatinhas novas, que não é bem a tradição, mas é mais ao gosto da boca dos pequenos. Ainda ensaiei um arroz doce e umas rabanadas que, como doçaria, já não são bem do meu campeonato, mas que ao fim de duas tentativas me deixaram suficientemente orgulhoso e confiante para investir neles.
Ainda despertei para dia vinte e quatro com alguma esperança, sol de pouca dura. Afinal não vai dar este ano pai, ligou-me o mais novo à hora de almoço, Ouça pai, na passagem de ano não temos nada que fazer, eu e o mano até já conversámos isso, somos capazes de passar por aí para jantar.
Não quis ficar sentado a marinar tristezas, as tâmaras comi-as e o toucinho foi para o gato, que a minha saúde está bem mais velha e rabugenta que eu, e não perdoa nada. Hoje acabei a minha volta, facilitada pela experiência que ganhei na semana passada, fui buscar o bacalhau ao sítio certo, as melhores tâmaras de Lisboa à mercearia e, para tudo estar perfeito, só vou comprar o toucinho no dia trinta e um, que assim fatiado, com um milímetro, agarra os cheiros todos do frigorifico, inclusive o da comida do gato.
Ainda assim, não consigo dormir, apesar de ter tudo conforme o plano.
E eu tenho a certeza que eles vêm. Tenho a certeza.
23.12.09
Hot Clube
Apesar de não ser vulgar este tipo de publicações aqui pelo blogue, eu resolvi, provavelmente por uma daquelas necessidades da alma cuja explicação objectiva se guarda na gaveta das coisas complicadas, fazer por aqui um pequena homenagem.
Recordo a primeira vez que desci aquelas escadas, não pagando nada à entrada por "ser músico numa outra escola", mentira que gosto de catalogar como branda e que, de certa forma, me deixou orgulhoso, já que os olhos experimentados do porteiro devem ter encontrado, no brilho dos meus, argumentos suficientes para colmatar o "esquecimento do cartão". Foi um dia especial por várias razões, algumas delas que nem sequer têm nada a ver com o Clube, muito menos com a fabulosa música que saboreei por lá. Outras estórias.
Fica a recordação de uma casa que, segundo as notícias referentes ao infeliz acontecimento, não tornará a abrir naquele espaço. Estou convicto, como afirmei no inicio, que será só um virar de página. Lisboa, pelo menos a minha, ficou hoje um bocadinho mais pobre, mas nada que o tempo não se encarregue de resolver e, quem sabe, com a subtileza das sétimas maiores, nos torne a devolver um Hot Clube igualzinho ao que ficou na memória, umas escadinhas que descem para debaixo do chão, na Praça da Alegria.
22.12.09
Natal dos Hospitais
18.12.09
Música xxx)
15.12.09
Arrepio
É sempre assim, principalmente desde que estou na cidade. Quando a televisão anuncia fenómenos meteorológicos importados de outros lugares, mais a norte, arranjo um intervalo e, sem pressa, sem atentar demais às costuras, sem atilar uma roupa para dentro da outra, sem me lembrar, ou antes, esquecendo-me propositadamente dos buracos por onde, como se quer, o frio vai acabar por entrar, visto-me para sair, para ir lá fora sentir que estou vivo.
(Este texto foi escrito para o "Adeus, até ao meu regresso", onde foi publicado, como de costume, no espaço de terça-feira)
10.12.09
iPod, Shuffle Mode
1.12.09
29.11.09
O Baile dos Sem-Ninguém
21.11.09
Música xxviii)
20.11.09
Atenta o compasso
pum tsh tsh
pum tsh tsh
Roda
Roda, que te olham
Roda, que te empurram
Roda, que te mandam
Um dois três
Um dois três
Dança
Dança, que te encontram
Dança, que te apanham
Dança, que te matam
Um dois três
Um dois três
A vida é uma valsa
pum tsh tsh
pum tsh tsh
19.11.09
17.11.09
Jardim Interior
Não fiquei triste, a sério que não, duas tardes de equilibrista foram suficientes para me livrar de todo o verdete da marquise e, no fim da trabalheira, fiquei com vista para duas laranjeiras, mirradas pela sombra daquele poço esquecido entre prédios anónimos. Concluí sem pressa que ninguém, de entre todos os vizinhos empilhados à minha volta, se virava para aquele buraco e assumi, com assinalável alegria, que a escada de incêndio tinha sido ali colocada pela mão de alguém raro, com olho para o encanto das pequenas coisas.
Não fiquei triste, a sério que não, quando uma das janelas mortas dos segundos andares, a do prédio a norte, o único com acesso à escada que, todos os dias, me leva ao meu jardim bafiento, se acendeu num desassossego. Gosto de pessoas e sei fazer o meu silêncio mesmo em lugares onde o barulho não descansa. Para ser franco, não percebi ao certo quando é que as laranjeiras deixaram de ser exclusivamente minhas e passaram a ser um bem comum e, se não fosse o Carlos enroscar-se na cadeira com almofadas floridas que surgiu ao lado da minha, eu nem teria reparado nela.
Não fiquei triste, a sério que não, quando na semana passada o Carlos miou num sobressalto, acordando-me da minha leitura, porque o assustaste com a tua acesa discussão sobre coisas pesadas e dores entaladas, enquanto descias as escadas, numa distracção que quase te custou um tornozelo magoado, não fosse eu ter-me levantado para te receber, acabando por facilitar o amparo improvisado à pequena queda que deste. Agradeceste-me com os olhos e eu resolvi deixar o jardim para ti. Quando cheguei à marquise tentei não escutar, eu que sou tão bom a fazer silêncios, mas uma sensação que, a ser arrumada numa gaveta, iria para a mesma que a dos apartamentos das traseiras, a das novidades extravagantes, segurou-me a atenção.
Não fiquei triste, a sério que não, quando tive a certeza que choravas, enroscada na minha cadeira de pau, porque o Carlos havia ficado pela tua cadeira de primavera, num novelo de compaixão e tu, ou por indiferença ou por bondade, não o quiseste enxotar. Fiquei apertado por dentro, desconcertado e desvalido, conseguia ouvir cada soluço engasgado, e estremecia sem saber o que fazer, mas não fiquei triste.
Desculpa aquilo de ontem, disseste de olhos vermelhos, a meio da tarde de sábado, Não tinha reparado que estavas aqui. Sorri um Não há problema enquanto te sentavas ao meu lado. Ficámos muito tempo sem dizer nada. Não te preocupes, está tudo bem, já passou, começaste a dizer sem eu ter perguntado nada. Tinha um mundo de emoções estrangeiras atadas num nó, à porta da boca, e suponho que uma expressão interrogativa, porque continuaste, Adoptei este jardim sem saber que era teu, precisava de um lugar, agora que fiquei sozinha, Sabias que eu tinha escutado tudo e não estavas zangada, Não te importas?. Sorri, não estava capaz de sequenciar palavras de forma lógica.
Hoje desceste com lanche para mim, Como haveria de me importar, vizinha? É uma alegria ter movimento por aqui, atirei-te eu, num descompasso do coração que até um tolo alienado conseguiria notar. Tinha-te espreitado a roubar laranjas, descalça, de manhã, mas nem os meu delírios mais ousados impediram que ficasse desarmado, Andei a roubar laranjas para te fazer um sumo!. A conversa perdeu-se nas horas e eu dei por mim num remorso incontrolável, Não fiquei triste, a sério que não, expliquei-te eu. O teu silêncio fez-me cair dez vezes a altura daquele poço estreito e escuro onde, ainda há momentos, levitávamos contentes e só sosseguei quando me abraçaste. Não disseste mais nada até ires para casa e eu não consigo sair cá de baixo, com medo que me falhem as pernas.
(Este texto foi escrito para o "Adeus, até ao meu regresso", onde foi publicado, como de costume, no espacinho de terça-feira, gentilmente cedido pelo dono do espaço.)
16.11.09
Beatles
Passou no outro dia por mim um miúdo que não teria mais que dez anos. Vinha a cantar o ‘Yellow Submarine’, dos Beatles. É por isto que tenho esta opinião:
Os Beatles são a maior banda de sempre.
Para mim são também a melhor, mas alguns não concordam porque ‘gostos não se discutem, e o que eu gosto é diferente do que tu gostas, e não me podes obrigar a ouvir o mesmo que tu ouves’, e blá blá blá, todos os clichés politicamente correctos que muitas pessoas dizem com um ar arreliado e indignado, porque não se podem questionar gostos alheios, dizem elas.
Voltando ao miúdo. É espantoso ver alguém cantar uma música de um CD trinta anos mais velho que ele, de uma banda que provavelmente não conhece, mas que ouviu em algum lado e ficou no ouvido. E isto só acontece com os Beatles, porque nenhuma criança cantarola o ‘Satisfaction’ dos Rolling Stones, ou assobia o solo de guitarra do ‘Shine On You Crazy Diamond’ dos Pink Floyd. E são também grandes bandas e grandes músicas. Mas só os Beatles conseguem pôr pessoas a cantar uma música que não conhecem. Já fazem parte do cancioneiro popular (belo termo, tipo crítico do música do Ypsilon, que são intelectuais e incompreendidos). E isto torna-os a maior banda de sempre.
E agora era uma boa altura para postar uma música, mas confesso que entre todas não consigo escolher uma que seja a melhor. Por isso deixo ao critério do leitor a escolha.
13.11.09
Filosofia das coisas pequenas.
Somos coisas pequenas, nós. Pó no início, condenados a ser o caminho que fazemos, a crescer com a cara daquilo que vamos rebolando.
12.11.09
8.11.09
Vento
5.11.09
Música xxv)
Chamo-me Zé e vim práqui a pé.