8.2.10

Cansaço vii)

Começas a ver os dias a quererem misturar-se uns com os outros e decides que estás cansado de esperar que chegue o cansaço. Arrastas-te para o leito dos sonhos e, mais tarde ou mais cedo, acabas por te deixar babar copiosamente, até que chega a tarde do dia dos outros, que é a tua manhã, e despertas para uma nova jornada, cheia de oportunidades fresquinhas, daquelas que és perito em desperdiçar. Acordei cansado, atiras à consciência. Enfim.

4.2.10

Música xxxvi)

São os dias assim que despertam o pescador brigão que há em mim, seja lá isso o que for.

3.2.10

Fado da Vida,

Sou a corrida dos meninos
Todos tão pequeninos
Descalços pela calçada
Sou o caminho que salta
E que leva a malta
P’las curvas da estrada

Sou o sopro do vento
Que nascido ao relento
Lava a cara molhada
Sou o poema salgado
Que é o bailado
Das ondas da madrugada

Sou a flor estrangeira
Que nasceu trigueira
No meio do nada
Sou o escorrer dos sonhos
Mais ou menos risonhos
Nos olhos da criançada

Sou a gaveta que tem
O mal e o bem
Desta vida cansada
Sou o amor que estremece
Num acorde maior
Gemido da guitarrada

Sou o fado da vida
Sempre de fugida
Cantado à desgarrada
Sou o cheiro da festa
Que quando começa
Já está acabada.








(Publicado no "Adeus, até ao meu regresso")

28.1.10

Música xxxv)

Isto anda precisar de mudar, que se isto não muda, temo que vá descambar.

26.1.10

Antes do pós

Num estaminé vizinho, falou-se sobre a enriquecedora experiência de um pós-exame que não correu bem. Aqui segue a minha experiência sobre o que antecede o dito acidente. Assim em jeito de prólogo.

Tudo começa com o estudo. Sentado numa secretária, no quarto, numa biblioteca, numa mesa de café. Seja onde for, o fingir que se estuda não olha ao local. Muitas folhas e papéis espalhados, porque assim dá um ar mais competente e entendido. Começa por se abrir o livro numa página, mas afinal para perceber isto preciso de estudar mais para trás. E quando damos por nós começar a estudar é como procurar a ponta do fio num emaranhado de lã. O princípio está escondido e quase impossível de se agarrar.

Quando por fim descobrimos alguma coisa que seja precisa para o exame e não exija bases de trás, começa a distracção. Olha, nunca tinha reparado que as paredes são desta cor, ah!, esta mosca a voar faz umas figuras geométricas giras. Consigo ver um quadrado. Agora um triângulo. E aquele CD, que não oiço há tanto tempo? Deixa lá só ouvir uma música, a nº três era a minha preferida. Afinal parece que não, acho que final era a cinco. Não, também não é esta. O melhor é ouvir do princípio para ver se a encontro. Agora deu-me a fome, ainda não comi nos últimos 45 minutos. Segue então um intervalo na cozinha. Intervalo de quê, mais precisamente? Não se sabe, mas é com certeza um intervalo merecido. Abre-se e fecha-se um frigorifico no mínimo três vezes, pode ser que apareça lá o que nos está a apetecer.

Regresso ao local de estudo. Mas não se pode começar a estudar depois de uma pausa, porque pode cair mal. Faz-se a transição no computador, onde se consultam os sites habituais (FB, blogs diversos, jornais e revistas, ...) que não têm qualquer actualização desde a última vez que os visitámos. Recomeça o estudo, e recomeça o parágrafo acima.

Eventualmente chega o dia do exame. Se foi um daqueles que dura três horas dá para experimentar toda uma panóplia de sensações. Desde a euforia sem razão, passando pelo desespero, pelo ódio à faculdade respectiva, e algumas vezes até pelo sono. E, como três horas são muitos minutos, dá também para distracções. Olha, nunca tinha reparado que as paredes são desta cor, ah!, esta mosca a voar faz umas figuras geométricas giras. Consigo ver um quadrado. Agora um triângulo.

Acaba o exame, entrega-se, e parte-se para os passos recomendados no texto referido acima.

25.1.10

iPod, Shuffle Mode

Vá para fora cá dentro.


'há tanta coisa que enlouquece'


Folclore versão século XXI


É só pôr a primeira música em play

23.1.10

O Banco de Jardim

O cenário sugeria romance. Mãos dadas, palavras suspiradas, olhos apaixonados e a cabeça tombada no ombro.

Era um banco de jardim, daqueles verde-garrafa, posto no meio da relva de frente para o lago onde alguns patos vinham à borda pedir umas migalhas de pão. Com quatro pé e corações esculpidos a canivete, iguais a tantos por esses jardins fora.

Serviu de esconderijo a primeiros beijos nervosos e atrapalhados. Recebeu casais apaixonados que ali passavam tardes em silêncio. Testemunhou juras de amor eterno, que para uns não durou mais que meia dúzia de dias, mas que para outros durou uma vida inteira. Ajudou a gestos românticos grandes e sonoros, que envolviam anéis de brilhantes, ou gestos pequenos como uma flor apanhada num canteiro vizinho. Co-compôs um sem número de baladas, e co-escreveu poemas sobre o azul do céu, o brilho dos olhos e todos esses assuntos de maior importância para uma alma em estado de graça.

Mas a cena a que assistia agora tinha, ao contrário do habitual, pouco de romântico. Ela chegou mas ele não. No seu lugar estava uma carta fechada, com o destinatário escrito a letras frias e impessoais. Ela abriu-a e leu em voz alta, para o banco também ouvir:

Conta lá onde os escondeste. Fechaste-os a sete chaves no peito, ou largaste-os ao vento para alguém os apanhar? Em que gaveta da memória ficaram eles trancados? Podes ficar com as noites em branco, com as mágoas afogadas em gelo e limão, com os minutos que gastámos em silêncio. Mas os beijos são meus. Esses quero-os de volta.

E foi assim que o banco de jardim, habituado a finais felizes, conheceu o amargo sabor do fim de um romance.

22.1.10

Tenho a assinalar que

Há um ano e uns dias, que entretanto passaram sem ninguém dar conta, o nosso rico e formoso blogue completou um ano de existência. Como membro fundador, aproveito a ocasião para, de uma forma informal, deixar o meu sincero agradecimento a todos os colaboradores, mais ou menos assíduos, e até aos que nunca colaboraram. Agradeço também a quem criou o hábito de ler o que por aqui se deixa, ia ser desonesto da minha parte se dissesse que não quero saber dos comentários. Todos os dias aqui dou um pulo, a ver o que veio na rede, e os sorrisos que me roubam vão valendo o tempo perdido. Agora resta torcer para que isto dobre os anos.

19.1.10

O Encontro

Caramba, que me dói a barriga. Sinto-me preso dentro de uma marioneta bizarra que vai atirando os pés para a frente num andar afectado de quem tem por hábito passar o dia sentado. O meu corpo é um lugar estranho, desconcertante, assustador. Sinto-me vítima duma jigajoga de contornos perversos. Agora estou a suar das mãos. Quero parar de suar das mãos, ela vai reparar quando agarrar nas flores, vai notar que o jornal que as envolve está ensopado, vai ter nojo de mim, de certeza. Agora da testa, sinto as gotas todas, todas únicas, sei contá-las e ordena-las por tamanho, consigo adivinhar qual vai escorrer a seguir em direcção às sobrancelhas. Porra, à sobrancelha, que é só uma.

Queria saber andar como os heróis dos filmes, quando estão de costas para as explosões, com toda a confiança do mundo, ao ritmo de uma música composta a pensar naqueles passos. Queria ter as mãos firmes como as de um cirurgião, experimentadas como as de um pescador e esbeltas como as de um pianista, queria sobretudo que não ensopassem o jornal que envolve as flores.

Os meus óculos embaciaram, lá fora estava demasiado frio e aqui dentro está demasiado calor, nem vou conseguir vê-la dobrar a esquina do corredor. Ela vai achar que eu sou só parvo, vai chamar-me à atenção e eu nem vou reparar como ela disfarça mal a impaciência, e nem sequer vai ser porque vou estar a tentar escutá-la por cima das reclamações do meu estômago, mas sim porque a concentração exigida para não deixar descair o queixo me vai dar pano que chegue para muitas mangas.

Caramba que me dói a barriga. Sinto-me preso dentro de um sonho mau, daqueles em que queremos correr, para fugir de alguém ou para chegar mais depressa a algum lugar, mas as nossas pernas vão ficando cada vez mais lentas, cada vez mais pesadas, como se não fossem nossas, como se fossem desconhecidas e indiferentes.

Sossega, eu estive mais de cinco minutos para conseguir vir ter contigo, parece que tenho um cavalo a galope no peito, segredou-me ela. Se o meu corpo fosse obediente à minha vontade, eu tinha dado um pulo de surpresa. Fiquei-me pelo sorriso, Trouxe flores para ti.

São lindas.





(texto escrito para o "Adeus, até ao me regresso".)

13.1.10

Música xxxiv)

Fora de ti, não há lugar para ir.

9.1.10

Para despertar, há que adormecer primeiro?

A minha desconjuntada arca do raciocínio diz-me que as horas não estão para escrever, grita-me razões irrefutáveis e tenta demover-me com consequências tão trágicas quanto prováveis, mas mesmo assim, e agora esta frase vai fazer-vos lembrar a canção da paixão, mesmo sabendo que não era boa ideia, empenhei o meu anel de rubi, o meu futuro seguríssimo, empenhei-o um bocadinho mais. Não preciso de nenhuma boa razão, que se danem as boas razões.
Amanhã vou rebolar até se acabar a manhã e vou perder tempo demais a assistir à luta que a consciência vai travar com a apatia, recorrência que não é mais que a minha receita preferida para o insucesso.
E já agora, que me ficou atravessada a mancha na esmerada eloquência do texto, as razões nunca se danam, o nosso subconsciente é que se entretém a ignorá-las, sobretudo quando elas só vêm complicar as contas, porque a verdade é que as razões são o coração, o pulso, das acções.
Aproveito e acrescento a minha nota ao que o Newton nos ensinou: Para cada acção há, não só uma reacção, como também uma razão, sendo que esta última pode não gostar de ser calculada.

8.1.10

Música xxxii)

São as tardes indecisas, as que se deixam chover sem tentarem esconder o sol, as que se esticam mais de um século, que dão nome à Saudade.

29.12.09

Só mais um ano.

Não consigo dormir, apesar de já ter tudo conforme o plano. A única coisa que falta é comprar o toucinho. Eu sei que todos eles adoram as tâmaras bem enroladinhas, numa trouxa de toucinho sem gordura nem plásticos, presa por um palito. Na mercearia garantiram que aquelas eram as melhores tâmaras de Lisboa, deram-mas a provar, sem desconfiarem que eu não sou de cerimónias, e o facto é que, confiando na minha memória, são as melhores que me passaram pelo palato.

Isto já foi no inicio da semana passada, porque como me disse o mais novo no ano passado, Talvez aí passe para o ano pai, este ano vamos para o sul de França, e o mais velho em Setembro, Sim pai, talvez aí passe no Natal, e eu queria ter tudo a jeito para os receber, tanto que resolvi não esperar pelo telefonema de confirmação e comecei a aprumar as coisas para a consoada.

Não foram só as tâmaras e o toucinho, fatiado com um milímetro. Perdi duas tardes inteiras à procura do melhor bacalhau, para o levar ao forno com cebola em redução de Porto Branco e umas batatinhas novas, que não é bem a tradição, mas é mais ao gosto da boca dos pequenos. Ainda ensaiei um arroz doce e umas rabanadas que, como doçaria, já não são bem do meu campeonato, mas que ao fim de duas tentativas me deixaram suficientemente orgulhoso e confiante para investir neles.

Ainda despertei para dia vinte e quatro com alguma esperança, sol de pouca dura. Afinal não vai dar este ano pai, ligou-me o mais novo à hora de almoço, Ouça pai, na passagem de ano não temos nada que fazer, eu e o mano até já conversámos isso, somos capazes de passar por aí para jantar.

Não quis ficar sentado a marinar tristezas, as tâmaras comi-as e o toucinho foi para o gato, que a minha saúde está bem mais velha e rabugenta que eu, e não perdoa nada. Hoje acabei a minha volta, facilitada pela experiência que ganhei na semana passada, fui buscar o bacalhau ao sítio certo, as melhores tâmaras de Lisboa à mercearia e, para tudo estar perfeito, só vou comprar o toucinho no dia trinta e um, que assim fatiado, com um milímetro, agarra os cheiros todos do frigorifico, inclusive o da comida do gato.

Ainda assim, não consigo dormir, apesar de ter tudo conforme o plano.

E eu tenho a certeza que eles vêm. Tenho a certeza.


23.12.09

Hot Clube

Ardeu, irónico virar de página na história de uma pequena cave perdida em Lisboa, o Hot Clube.
Apesar de não ser vulgar este tipo de publicações aqui pelo blogue, eu resolvi, provavelmente por uma daquelas necessidades da alma cuja explicação objectiva se guarda na gaveta das coisas complicadas, fazer por aqui um pequena homenagem.
Recordo a primeira vez que desci aquelas escadas, não pagando nada à entrada por "ser músico numa outra escola", mentira que gosto de catalogar como branda e que, de certa forma, me deixou orgulhoso, já que os olhos experimentados do porteiro devem ter encontrado, no brilho dos meus, argumentos suficientes para colmatar o "esquecimento do cartão". Foi um dia especial por várias razões, algumas delas que nem sequer têm nada a ver com o Clube, muito menos com a fabulosa música que saboreei por lá. Outras estórias.
Fica a recordação de uma casa que, segundo as notícias referentes ao infeliz acontecimento, não tornará a abrir naquele espaço. Estou convicto, como afirmei no inicio, que será só um virar de página. Lisboa, pelo menos a minha, ficou hoje um bocadinho mais pobre, mas nada que o tempo não se encarregue de resolver e, quem sabe, com a subtileza das sétimas maiores, nos torne a devolver um Hot Clube igualzinho ao que ficou na memória, umas escadinhas que descem para debaixo do chão, na Praça da Alegria.

Música xxxi)

Um Feliz Natal a todos os estranhos que por aqui passam.

22.12.09

Natal dos Hospitais

Ainda não tenho idade suficiente para ter desconto sénior no cinema, por isso não sei até que ponto é indicado começar uma frase da maneira seguinte. Mas aqui segue o atrevimento...

Ainda sou do tempo em que ver o Natal dos Hospitais era uma actividade da quadra em questão que quase rivalizava com a ceia, ou até mesmo com o nascimento do Menino. Era uma tarde inteira passada à frente da televisão, em que as pausas para casa-de-banho ou para trincar uma bucha tinham obrigatoriamente de coincidir com os intervalos do programa. Eram cinco ou seis horas do melhor que o entretenimento nacional tinha para dar.

E, infelizmente, o Natal dos Hospitais continua a oferecer o melhor que o entretenimento nacional tem para dar. Mas este já não entretêm. Desde bailarinas com fatos 100% poliéster a abanar as ancas ao som de músicas de Natal tocadas em xilofone, à Ruth Marlene a dizer com um ar atrevido e maroto a crianças de oito e nove anos frases do calibre de 'quando o rapaz quer mexer sem ter licença', passando ainda por bandas com tão pouca qualidade que nem conseguem coordenar os tempos e os instrumentos com os do playback, e acabando no triste número dos tristes palhaços tristes.

Isto para não referir que toda a emissão era um ping-pong entre o Hospital de São João no Porto e um outro qualquer na capital. Já não chega ser só um hospital, é preciso espalhar o mal pelas aldeias. E para isto funcionar é preciso então procurar o dobro de falta de talento que seria preciso se continuássemos com o modelo mono-hospital. Isto no entanto tem a vantagem de dar o dobro da diversão que teríamos com esse sistema.

Na Invicta tínhamos o Jorge Gabriel e a Sónia Araújo, que ganhou um lugar no Guinness pelo sorriso aguentado durante mais tempo. Na capital tínhamos o João Baião, que apresenta qualquer coisa, desde que o posso fazer aos pulos. E todas as nove horas de emissão (sim, porque agora este certame arranca logo depois das notícias da manhã) foram um demorado jogo do empurra com a emissão entre Porto e Lisboa.

A melhor coisa que saiu deste espectáculo foi o facto da economia portuguesa ter sobrevivido no último trimestre devido ao boom da venda de gorros de Pai-Natal. Porque as pessoas só se divertem realmente quando põem um gorro que pisca na cabeça.

Tirem-me a ceia e o jantar, os sonhos e as rabanadas, a família e o nascimento do Menino, o Presépio e a árvore de Natal, só peço é que me devolvam o meu Natal dos Hospitais.

18.12.09

Música xxx)

Independentemente do inverno que anda lá fora, contando que nem o tempo nem a sorte me correm de feição e mesmo sabendo que "férias" é um piropo arrojado para os dias que se aproximam, eu sinto-me bem.

15.12.09

Arrepio

Calças de ganga primeiro, ou jeans, como dizem por cá, coisas da cidade, não contando com a roupa interior que, ceroula ou boxer, peúgo ou meia, já se encontrava a uso. Camisola de manga curta a seguir, ou t-shirt, expressão inglesa alusiva à forma da vestimenta, a fazer lembrar um tê, e que, por originalidade ou falta dela, deixou que o tempo a promovesse a substantivo transversal às línguas do mundo, não todas, mas as bastantes para que aqui se mencione o fenómeno. Camisola por cima, peça que as pessoas da cidade também gostam de apelidar com estrangeirismos vários, mas que por aqui é simples, escura e quente. Botas, a do pé direito a seguir à do pé canhoto, num ritual mecânico com contornos de mistério, envolvendo uma dança entre os dedos e os laços, num momento de compenetração, condensado num silêncio. Feito o baile, enrola-se o cachecol de lã, oferta da avó para quem o pescoço comprido do menino não é elegância nenhuma, mas sim uma boa maneira de arranjar uma constipação e, com essa falta de cuidado que é a juventude, uma gripe por consequência. Música nos ouvidos, não interessa especificar, mas ninguém duvidará do bom gosto de quem nunca se esquece de aconchegar as orelhas como quem sobe o fecho do casaco antes de sair para a rua, gesto que, curiosamente, teve lugar imediatamente a seguir. Arrumam-se as ideias dentro do gorro, não vá o frio deixá-las trémulas e, finda a batalha, sai-se para a rua.

É sempre assim, principalmente desde que estou na cidade. Quando a televisão anuncia fenómenos meteorológicos importados de outros lugares, mais a norte, arranjo um intervalo e, sem pressa, sem atentar demais às costuras, sem atilar uma roupa para dentro da outra, sem me lembrar, ou antes, esquecendo-me propositadamente dos buracos por onde, como se quer, o frio vai acabar por entrar, visto-me para sair, para ir lá fora sentir que estou vivo.









(Este texto foi escrito para o "Adeus, até ao meu regresso", onde foi publicado, como de costume, no espaço de terça-feira)

10.12.09

iPod, Shuffle Mode

Portanto aqui seguem mais umas músicas, para alegrar manhãs frias, tardes de estudo ou noites à lareira.

Enquanto a inspiração e as ideias continuam desaparecidas em parte incerta, atira-se areia para os olhos dos bloyeurs, na esperança que não notem.


Há também uma grande versão desta música, tocada por esses 'desconhecidos' que são o Louis Armstrong e a Ella Fitzgerald. Esta, ainda assim, pareceu-me mais apetecível.


Elvis na década 00.


A menina dança?

1.12.09

Música xxix)

Hoje eu não me recomendo.

29.11.09

O Baile dos Sem-Ninguém

Toda a gente sabia o que lá acontecia, mas ninguém falava sobre isso. Alguns já lá tinham ido, mas não comentavam. Quem por ali passava sem conhecer, via mais uma porta fechada no meio de prédios deixados ao abandono, quem passava conhecendo, via os sonhos que se abriam para lá dessa porta.

Chamavam-lhe o baile dos sem-ninguém. E não era nem mais nem menos que isso. Uma banda debitava ritmos que apelavam à dança, e quem lá estava dava-lhes uso. Tango, para os mais arrojados, gavotte para os mais conservadores. Samba, para os animados, valsa para os cabisbaixos. Foxtrot, para os americanos, passo doble para os europeus.

Havia de tudo para todos os gostos. Ali, cada um podia ser quem quisesse, não havia olhares julgadores nem segredos sussurrados entre dentes.

As portas estavam sempre abertas e todos eram bem-vindos ao baile. Não era preciso convite ou cartão de sócio, só conhecer alguém que já lá tenha ido e estivesse disposto a partilhar a morada. Não vinha anunciado nas páginas amarelas. Não por vergonha, apenas como tentativa de tentar manter este local como uma espécie de segredo bem guardado que só se revela em confissões sussurradas que começam por 'o que te vou dizer não podes repetir a ninguém!'.

E porque nesse baile nem tudo é ciúme ou desencontro, foram muitos os que de lá saíram com alguém pela mão. Havia noites em que uma estrela brilhava para alguns, e entre os passos de dança e os compassos da banda iam-se juntando, até que a certa altura deixavam de pertencer ao baile dos sem-ninguém. Porque essa era a única condição de entrada.

in 'O Baile dos Sem-Ninguém', Mendes

21.11.09

Música xxviii)

Sábados de chuva são catalisadores naturais da nostalgia. Where is my mind?

20.11.09

Atenta o compasso

A vida é uma valsa
pum tsh tsh
pum tsh tsh

Roda
Roda, que te olham
Roda, que te empurram
Roda, que te mandam

Um dois três
Um dois três

Dança
Dança, que te encontram
Dança, que te apanham
Dança, que te matam

Um dois três
Um dois três

A vida é uma valsa
pum tsh tsh
pum tsh tsh

19.11.09

Música xxvii)

Anda comigo, vamos dançar esta.

17.11.09

Jardim Interior

O segundo andar das traseiras foi, na altura em que me mudei para cá por causa do emprego, uma novidade extravagante. Tinha ouvido falar dos esquerdos e dos direitos, mas nunca dos de trás.
Não fiquei triste, a sério que não, duas tardes de equilibrista foram suficientes para me livrar de todo o verdete da marquise e, no fim da trabalheira, fiquei com vista para duas laranjeiras, mirradas pela sombra daquele poço esquecido entre prédios anónimos. Concluí sem pressa que ninguém, de entre todos os vizinhos empilhados à minha volta, se virava para aquele buraco e assumi, com assinalável alegria, que a escada de incêndio tinha sido ali colocada pela mão de alguém raro, com olho para o encanto das pequenas coisas.
Não fiquei triste, a sério que não, quando uma das janelas mortas dos segundos andares, a do prédio a norte, o único com acesso à escada que, todos os dias, me leva ao meu jardim bafiento, se acendeu num desassossego. Gosto de pessoas e sei fazer o meu silêncio mesmo em lugares onde o barulho não descansa. Para ser franco, não percebi ao certo quando é que as laranjeiras deixaram de ser exclusivamente minhas e passaram a ser um bem comum e, se não fosse o Carlos enroscar-se na cadeira com almofadas floridas que surgiu ao lado da minha, eu nem teria reparado nela.
Não fiquei triste, a sério que não, quando na semana passada o Carlos miou num sobressalto, acordando-me da minha leitura, porque o assustaste com a tua acesa discussão sobre coisas pesadas e dores entaladas, enquanto descias as escadas, numa distracção que quase te custou um tornozelo magoado, não fosse eu ter-me levantado para te receber, acabando por facilitar o amparo improvisado à pequena queda que deste. Agradeceste-me com os olhos e eu resolvi deixar o jardim para ti. Quando cheguei à marquise tentei não escutar, eu que sou tão bom a fazer silêncios, mas uma sensação que, a ser arrumada numa gaveta, iria para a mesma que a dos apartamentos das traseiras, a das novidades extravagantes, segurou-me a atenção.
Não fiquei triste, a sério que não, quando tive a certeza que choravas, enroscada na minha cadeira de pau, porque o Carlos havia ficado pela tua cadeira de primavera, num novelo de compaixão e tu, ou por indiferença ou por bondade, não o quiseste enxotar. Fiquei apertado por dentro, desconcertado e desvalido, conseguia ouvir cada soluço engasgado, e estremecia sem saber o que fazer, mas não fiquei triste.

Desculpa aquilo de ontem, disseste de olhos vermelhos, a meio da tarde de sábado, Não tinha reparado que estavas aqui. Sorri um Não há problema enquanto te sentavas ao meu lado. Ficámos muito tempo sem dizer nada. Não te preocupes, está tudo bem, já passou, começaste a dizer sem eu ter perguntado nada. Tinha um mundo de emoções estrangeiras atadas num nó, à porta da boca, e suponho que uma expressão interrogativa, porque continuaste, Adoptei este jardim sem saber que era teu, precisava de um lugar, agora que fiquei sozinha, Sabias que eu tinha escutado tudo e não estavas zangada, Não te importas?. Sorri, não estava capaz de sequenciar palavras de forma lógica.

Hoje desceste com lanche para mim, Como haveria de me importar, vizinha? É uma alegria ter movimento por aqui, atirei-te eu, num descompasso do coração que até um tolo alienado conseguiria notar. Tinha-te espreitado a roubar laranjas, descalça, de manhã, mas nem os meu delírios mais ousados impediram que ficasse desarmado, Andei a roubar laranjas para te fazer um sumo!. A conversa perdeu-se nas horas e eu dei por mim num remorso incontrolável, Não fiquei triste, a sério que não, expliquei-te eu. O teu silêncio fez-me cair dez vezes a altura daquele poço estreito e escuro onde, ainda há momentos, levitávamos contentes e só sosseguei quando me abraçaste. Não disseste mais nada até ires para casa e eu não consigo sair cá de baixo, com medo que me falhem as pernas.




(Este texto foi escrito para o "Adeus, até ao meu regresso", onde foi publicado, como de costume, no espacinho de terça-feira, gentilmente cedido pelo dono do espaço.)

16.11.09

Beatles

Passou no outro dia por mim um miúdo que não teria mais que dez anos. Vinha a cantar o ‘Yellow Submarine’, dos Beatles. É por isto que tenho esta opinião:

Os Beatles são a maior banda de sempre.

Para mim são também a melhor, mas alguns não concordam porque ‘gostos não se discutem, e o que eu gosto é diferente do que tu gostas, e não me podes obrigar a ouvir o mesmo que tu ouves’, e blá blá blá, todos os clichés politicamente correctos que muitas pessoas dizem com um ar arreliado e indignado, porque não se podem questionar gostos alheios, dizem elas.

Voltando ao miúdo. É espantoso ver alguém cantar uma música de um CD trinta anos mais velho que ele, de uma banda que provavelmente não conhece, mas que ouviu em algum lado e ficou no ouvido. E isto só acontece com os Beatles, porque nenhuma criança cantarola o ‘Satisfaction’ dos Rolling Stones, ou assobia o solo de guitarra do ‘Shine On You Crazy Diamond’ dos Pink Floyd. E são também grandes bandas e grandes músicas. Mas só os Beatles conseguem pôr pessoas a cantar uma música que não conhecem. Já fazem parte do cancioneiro popular (belo termo, tipo crítico do música do Ypsilon, que são intelectuais e incompreendidos). E isto torna-os a maior banda de sempre.

E agora era uma boa altura para postar uma música, mas confesso que entre todas não consigo escolher uma que seja a melhor. Por isso deixo ao critério do leitor a escolha.

13.11.09

Filosofia das coisas pequenas.

O cotão é o caminho que vai rebolando, ora despreocupado, ora loucamente agitado por alguma corrente de ar mais arisca, debaixo da cama. No inicio é pó que, ou por alguma força intermolecular demasiado aborrecida para ser descrita, ou por simples afinidade, se junta a outro pó da vizinhança, dando assim início a uma existência que não é senão um rebolar mais ou menos aleatório, apontado a um fim mais ou menos imprevisível.

Somos coisas pequenas, nós. Pó no início, condenados a ser o caminho que fazemos, a crescer com a cara daquilo que vamos rebolando.


12.11.09

Música xxvi)

Vamos falar das coisas que eles não nos podem tirar.

8.11.09

Vento

Diziam que ali o vento falava conosco. A alguns, dizia o que queriam, a outros o que precisavam de ouvir. Poucos eram os casos em que era a mesma coisa.

Era preciso descer um caminho íngreme, esculpido no meio de duas rochas que desciam a pique até uma praia escondida. Deve ter sido feito por alguma entidade celeste. Nenhum homem conseguiria abrir um caminho assim, com uma descida em ângulo recto tão acentuada até ao fundo. Terá sido um desses deuses que se puseram a voar mais perto do sol com asas falsas, ou outro qualquer que num dia de pouco trabalho lá por cima decidiu brincar num recreio que não era o dele.

Mas a verdade é que o caminho lá estava, sempre lá esteve, e por muito que o mar lhe batesse, não parecia dali sair.

A descida era perigosa. Os degraus eram apertados e estavam todos encavalitados uns em cima dos outros. Em alguns troços tínhamos de dar o passo na esperança que a pedra onde assentávamos todo o peso não caísse.

Mas todos os que se atreviam a essa viagem voltavam de lá diferentes. 'O vento fala mesmo conosco', diziam alguns ainda emocionados pelos conselhos que a nortada lhes trazia.

E se eu lá fosse a baixo, o que será que ouviria? O caminho assustava, mas a perspectiva de receber conselhos de alguém que já esteve em todo o lado era tentadora.

Decidi arriscar e ir ouvir o que me esperava ao fundo da descida. Pé ante pé, lá cheguei ao fim. Deitei-me na areia a tentar recuperar o ar que tinha perdido durante o caminho e fiquei calado à espera que o vento me sussurrasse qualquer coisa ao ouvido. Durante todo o tempo que lá fiquei, só ouvi o barulho do mar e das ondas. Levantei-me, e voltei a subir tudo o que tinha descido.

E realmente o vento fala conosco, é só preciso saber ir aos sítios certos para o ouvir.

5.11.09

Música xxv)

De todas as estórias, acontecidas ou inventadas, havia uma que era, por direito, a mais curta de todas, não contando, evidentemente, com o tamanho do caminho até aqui. Dizia assim:

Chamo-me Zé e vim práqui a pé.