22.2.12
curtinho, para poupar i)
A partida nunca é inteira. A vontade é plural e puxa para todos os lados.
Gaveta
para poupar
2.2.12
Terceiro.
Parece que aqui a pasmaceira somou três aniversários e, para não destoar dos costumes, ninguém reparou. A culpa, confesso, não me aflige o suficiente para vencer a inércia e o estaminé, pelo que de mim depende, vai permanecer entregue às moscas por tempo indefinido.
29.8.11
sem_título i)
Saboreando o invariavelmente agridoce fim de Agosto, as sobras secas do que foram, noutros tempos, gentes estranhamente produtivas nisto de escrever em blogues, dedicam-se a ponderar, cuidadosamente, o próximo passo. Deixar isto às moscas, ou fechar a porta de vez, eis a questão.
Gaveta
sem_titulo
9.5.11
5.5.11
Livro dos despautérios vi)
Nas últimas semanas sumiram-se-me os vocábulos todos, desarticularam-se os mecanismos de sintaxe mais primitivos e acabou-se-me o novelo das ideias, enrolaram-se-me as costas, encovaram-se as olheiras e desmancharam-se-me os artelhos. Hoje, dia oito mil setecentos e sessenta, constato, com receio, que não estou a ficar mais lesto, nem das ideias nem dos ossos. Não obstante, gosto de me agarrar à promessa de dias de ubérrima criatividade intelectual e soberbo vigor físico, não com um optimismo miúdo, desse que é o egoísmo dos distraídos, mas com genuína vontade de ir somando aos meus milhares de dias repetidos, uns quantos que valham a pena.
Gaveta
livro dos despautérios
12.4.11
Música lix)
Após três estações a inventar números romanos, eis que, com o regresso do ar a verão, voltamos a contar as músicas como deve de ser.
Gaveta
Bob Marley,
música,
Trenchtown Rock
25.3.11
Livro dos despautérios v)
A receita conta-se pelos dedos de uma mão. A farinha, da que estraga os olhos lindos da moleira, o isco, que vem sendo ressuscitado, semana sim semana também, desde ninguém sabe quando, o sal, que é a alma, a água, morna como a pele, e o amor, para garantir que tudo cresce. Os sentidos são a balança que, ao contrário dos mecanismos convencionais, aumenta de precisão com o uso do tempo.
O pão é como uma história sem segredos. Um bocadinho de atenção descobre o calor do forno, a moagem do grão e a dureza da água, o peso das mãos de quem amassou e o tempo que se esperou a massa.
O meu sono nunca se vai acostumar à noite dos outros. Não é insónia nem é espertina, é ser padeiro, de berço e de vontade.
Gaveta
livro dos despautérios
16.3.11
12.3.11
Livro dos despautérios iv)
Habituei-me à singularidade da minha cama de casal e, ultimamente, até me agrada a violência da jornada matinal rumo às rotinas diárias. O limbo ensurdecedor que separa as estações de metropolitano tem-me revelado evidências que, estou certo, não são novidade para ninguém.
A saudade é do espírito o que a fome é do corpo. Elas crescem de coisa nenhuma e eles, sem nada, desaparecem.
Gaveta
livro dos despautérios
25.2.11
24.2.11
Livro dos despautérios iii)
A linearidade é uma aldrabice. É solúvel em vinho. Dobra-se a pulso ou à sorte. Nós, gente miudinha, somos tão mestres da ilusão que nos iludimos da nossa mestria. Gostamos de ignorar, por afinidade de lógicas, que a linearidade é quase sempre uma aproximação grosseira, tirada a ferros, inventada para sossegar ou afligir sem espinhas. Andar enganado é mais fácil. Ainda assim, quer no aborrecimento, quer na exaltação, e sobretudo quando as circunstâncias aparentam uma clareza e definição que não deixem apetite à dúvida, eu recordo a facilidade com que me deixo enganar por mim mesmo, escolho um assento que me pareça adequado e, com o maior dos vagares, me debruço sobre as curvas que sei que vou encontrar, ainda que toda a gente me diga que por ali é sempre a direito.
Gaveta
livro dos despautérios
6.2.11
Música xlxvi)
A gente estranha está finalmente de "férias", Vi-mo-nos gregos pra merecer esta semaninha de viagens descalças e tardes de contemplação.
Gaveta
Aphrodite's Child,
Break,
música
3.2.11
Livro dos despautérios ii)
Não consigo decidir o que é pior, ter de ir dormir ou ter de acordar. Empato o sono com assinalável destreza, recorrendo à inércia de um qualquer desinteresse televisivo ou cibernético, geralmente embrutecedor do intelecto e invariavelmente dispensável. Não sei que tipo de bicho me mordeu esta aversão à cama, mas presumo que será da mesma família do que, todas as noites, me morde uma preguiça incapacitante que se manifesta à hora de levantar. Muito mais que uma caprichosa falta de vontade, a manhã, ou a tarde, dependendo dos dias, trás com ela uma moleza avassaladora. É comovente a intensidade dos argumentos esgrimidos na luta que vou travando com a minha consciência, enquanto lanço as mãos numa desgovernada busca do botão que adia o martírio da verticalidade, dez minutos de cada vez. Não consigo decidir o que é pior, suportar as pequenas violências que nos afastam do que é ser, em essência, um vegetal, ou tolerar o inacreditável espaço que damos às trivialidades.
Gaveta
livro dos despautérios
19.1.11
Livro dos despautérios i)
Sombreio com precisão tudo o que fica entre mim e o chão. A minha extensa verticalidade é suficiente para anoitecer uma considerável porção de terreno num magnífico eclipse profético, aos olhos dos bichos, pelo menos. A haver sol, é o que faço melhor, não havendo, faço pouco mais que providenciar um distinto abrigo para o vento e, no caso de uma franciscana falta de melhor, para a chuva que possa vir de empurrão com ele. Tudo isto sem recorrer à notável faculdade do movimento e, melhor ainda, sem qualquer esforço intelectual. Quieto, mudo e estúpido.
Tenho tido saudades das alturas do ano em que, luxo raro, me é permitido ficar quieto, mudo e estúpido.
Gaveta
livro dos despautérios
18.1.11
Segundo.
Aqui a obra cumpriu dois anos de existência e ninguém se lembrou. Custa-me crer que, em tão vasta legião de seguidores, ninguém tenha ficado com a sensação de se estar a esquecer de alguma coisa muito importante durante o dia, e daí, agora que atento bem no assunto, talvez nos estejam só a castigar pela escassez de actualizações. De qualquer das formas, agradeço, em nome da desaparecida equipa, a vossa lealdade à casa ao longo destes vinte e quatro meses. Obrigado Inês e Andador, (quem se sentir descaradamente excluído, faça o obséquio de se manifestar).
Gaveta
aniversário
24.12.10
Queijadas de Limão.
Tens de ir buscar três ovos. São especiais, os ovos, muito distintos e singulares por diversas razões. São comida para todas as mesas, das mais ricas às mais pobres, ou não fizessem eles par perfeito tanto com a mais ordinária das chouriças como com a mais refinada das trufas. Trás um limão pelo caminho, bem grande. O limoeiro está enorme, muito maior que no dia em que esgravatei o meu nome nele, com o canivete em que não se podia mexer. A memória dos cheiros é uma faculdade soberba, se me encostasse aqui, tinha lembranças para a tarde toda. Tens de raspar o limão todo, de medir duas canecas de açúcar e uma de farinha. Nada que leve mais açúcar que farinha pode dar errado. Agora, o cheiro lembra-me o meu avô, que vai observando atentamente, sem nunca falar, e o tempo em que o ficava a ver amassar o pão. Sempre achei que os meus horários de padeiro são coisa de família. Só faltam duas canecas de leite e uma colher grande de manteiga derretida. Mistura-se tudo, sem contemplações piegas nem segredos misteriosos. Usa a varinha da sopa, para ficar tudo bem suave.
Liga o forno a cento e sessenta graus. Ou cento e setenta. Não te queimes Zézinho. A espera, de trinta ou quarenta minutos, conforme o tom dourado da crosta crocante que se vai deixando formar em cada uma das formas do tabuleiro, cuidadosamente untadas com manteiga antes de terem sido enchidas, até cima, serve para ir recordando o tempo em que o Natal brilhava nos olhos dos mais pequenos. Agora são vocês que fazem os doces, já viram?
Vamos tentar tirá-las. Calma avó, quando nós éramos pequenos, esperar era um martírio, agora é a avó que tem pressa? Sou, tira-as agora que o avô não está a ver.
10.12.10
Café Cheio
Acabo de almoçar e vou ao café três portas ao lado. 'Churrasqueira Xico: comida take-away', anuncia uma faixa em letras grandes e orgulhosas. Sentados na esplanada estão dois senhores de alguma idade a olharem atentamente, quais falcões em busca da presa, para uma estrada deserta.
Entro e sou atendido pelo homem, atrevo-me até a dizer a lenda, que dá o nome ao estabelecimento. O Xico apresenta-se sorridente, com uma t-shirt que realça (e deixa um pouco a descoberto) uma barriga que chega a qualquer lado com alguns segundos de avanço. A testa ligeiramente lustrosa e os cabelos de lado molhados. Enquanto os mecânicos comprovam que estiveram a trabalhar num carro com as manchas de óleo, os donos das churrasqueiras apresentam o suor como prova do calor das frituras.
Depois da conversa 'então, tudo bem?' inicial, faço o meu pedido. Era um café cheio e um copo d'água, se faz favor. Agora vai ter de esperar um bocadinho, que está na hora do meu, responde-me o Xico, enquanto se senta. Bebe o seu café, fuma o seu cigarro, conversa com o companheiro de mesa sobre cheiros. O tema pareceu-me apelativo, mas infelizmente não consegui ouvir o conteúdo da discussão.
Passados dez minutos, depois de ter bebido, fumado e espreguiçado, dirige-se calmamente para dentro. Põe o chapéu de cozinheiro com muito cuidado, fazendo lembrar os preparativos dos cirurgiões antes de entrarem no bloco operatório. Depois dessa cerimónia, lá atende o meu pedido.
Isto sim!, é o verdadeiro café (no sentido de local, não da bebida). Não são cá esses estabelecimentos que a maioria das pessoas costumam frequentar, em que são servidas logo que se sentam. Ainda vou lá voltar antes de me ir embora. Acho que vou ter de jogar com a hora do futebol ou da novela.
4.12.10
Frio.
Sou de extremidades frias. Tenho os pés e as mãos longe da barriga e suponho que seja esse afastamento o principal culpado de semelhante tendência para arrefecer pelas pontas, já que a minha circulação sanguínea é, tanto quanto sei, soberba, e que o meu brilhantismo, infelizmente, não tem o calibre necessário para ser responsável pelo desvio de caudal circulatório que justifique tamanho fenómeno refrigerativo nas mais afastadas fronteiras corpóreas. Não me incomodo com nada. Nem quando a sensibilidade dos dedos dos pés, já de si reduzida, se deixa substituir por uma sensação bizarra, como se me estivessem a doer os pés de outra pessoa, nem sequer quando as mãos começam a ficar gradualmente mais lentas e inúteis, exigindo atenção e mimo. Hoje, enquanto vou ignorando os pés de não-sei-quem que me vão doendo do outro lado da cama, vou fazendo o gosto às mãos, à velocidade que a temperatura vai permitindo, e vou empilhando frases compridas, cheias de vírgulas e desinteresses. Não me incomodo com nada.
19.11.10
Música xlxiv)
Podia escrever um livro de lugares comuns, a apontar evidências.
Gaveta
Atoms for Peace,
música,
Tom Yorke
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