7.9.10
Dia de Finados
2.8.10
Aviso.
Se tiverem dificuldade em lidar com esta ausência, que assim repentina poderá dar origem a desorientações temporárias e situações pontuais de pânico, há sempre a possibilidade de me tentarem encontrar abaixo do paralelo trinta e oito. Até um dia destes.
30.7.10
Música xlxi)
20.7.10
Joana.
Cantavas com a tua imitação de sotaque baiano as músicas da rádio, muito afinadinha, e pedias-me que te ensinasse os acordes. Cheiravas sempre a protector solar e nunca me negavas um sorriso, a mim, o rei dos tolos. Abraçavas-me por trás sem pedir licença e ignoravas a minha indiferença. Tinhas um coração grande de mais no peito, grande demais para mim, pelo menos.
Nunca te deixaste cair, apesar dos dias insistirem em seguir a regra, apesar de eu continuar a arranjar maneira de te afogar as ideias em seco. Mandavas-me bilhetes a dizer que era eu que te dava asas e desenhavas joaninhas para explicar melhor. Não guardei nenhum.
Depois veio o vendaval que foi e eu percebi tudo. Levaram-te o coração, as asas e a música. Nunca me perdoei, sabes? Tu ainda me agradeceste, com os olhos a brilhar, e eu a saber que era tarde demais para te valer. Para nos valer.
Acabou por ser o medo a entalar-me as palavras na garganta e a arrumar-te no fundo da gaveta das recordações. Sempre o mesmo medo.
12.7.10
Música xlx)
4.7.10
Música xlix)
O dia em que morreu Sebastião.
Sebastião segredou num sopro os seu derradeiros dizeres, contando que chegassem para acalmar as angústias de quem esperava estarrecido a morte do mais verdadeiro velho da vida. No dia em que morreu.
26.6.10
Música Portuguesa
24.6.10
Maria Clementina
11.6.10
Música xlviii)
10.6.10
Ainda ando aqui.
23.5.10
2/7
O resto da orquestra está suspensa, muda. Os violinos, impacientes, preparam o arco. Encostam-no às cordas. Com o apontar da batuta, estas vibram em coro.
O céu começa a fechar-se. As nuvens juntam-se em cores de tempestade.
A primeira secção de violinos recomeça o tema inicial sobre os graves dos violoncelos. O tempo é mais rápido e o instrumento apresenta oscapriccios próprios.
Entra agora a segunda secção. Complementa a primeira. Enche, a contraponto, os espaços que esta vai deixando vazios. Sobem os arcos de uma, descem os da outra.
O ar começa a escurecer, o vento sente-se. As nuvens, cada vez mais escuras, enrolam-se sobre elas próprias.
O primeiro violino toma o seu lugar. Eleva-se, sozinho, acima do resto. O vibrato agudo, cristalino, sobrepõe-se a qualquer outro som da orquestra. O maestro, com movimentos curtos e precisos, dirige os instrumentos. Com a batuta ordena que os violoncelos subam de intensidade.
Os graves são o suporte para todos os outros sons, são o chão onde caem.
A segunda secção de violinos, regida pelo maestro com gestos secos da mão esquerda, acompanha os violoncelos nesta escalada, num diálogo que, pouco a pouco, vai subindo de volume.
Um a um, os violinos que seguiam o tema acompanham o primeiro na escalada sobre o resto da orquestra. Camada sobre camada, agudo sobre grave, o quadro acabou de ser pintado.
A tempestade desdobra-se impaciente para trás e para a frente.
O céu abre-se em dois com o estrondo dos tímbales. O chão estremece a cada vibração da corda dos contra-baixos. Foge debaixo dos pés.
Um, um dois três, um.
As madeiras rangem, os metais brilham, os arcos retesam-se.
Os violinos, em voo rasante, numa ventania fria, puxam os cabelos de trás do pescoço. Elevam-se no ar, em rodopio, e caem no chão, em estilhaços.
A chuva dos violoncelos cai, numa dança furiosa com o vento. É atirada contra as paredes, contra o tecto, contra o chão.
Os metais polvilham o quadro com reflexos de ouro. Relâmpagos rasgam o ar, iluminando à sua passagem.
Os contra-baixos trovejam, graves, assustadores, a fazer tremer por dentro. As cordas grossas soltam, em estrondos, trovões curtos. Em simultâneo com os relâmpagos. A tempestade atinge o seu pico.
Dois minutos e cinquenta e dois segundos depois já se pode respirar outra vez.
20.5.10
19.5.10
iPod, Shuffle Mode
Queimar fitas.
Talvez não seja talhado para isto de ser estudante, ou talvez seja só irremediavelmente romântico, mas ainda guardo alguma esperança, escondida, para não me envergonhar, de encontrar alguém, neste caminho que é a universidade, que ainda se lembre do tempo em que os professores ensinavam, os alunos aprendiam e o mundo crescia.
Lembraram-me recentemente que já devia ter acabado o curso, que já devia estar a andar para a frente com esse negócio de ser gente, estenderam-me, meio a medo, meio ao desafio, fitas de tecido colorido, Escreve qualquer coisa, onde deixei, invariavelmente, uma versão escrita daquilo que é um abraço forte, ao invés do tradicional carimbo de notificação de entrada numa "nova fase" e da muito gasta "boa sorte".
Estou muito feliz por todos aqueles que souberam encontrar combustível para a alma no meio da rebaldaria dos dias de estudante, aqueles que souberam agarrar-se aos objectivos traçados e que agora, chegados ao fim, lhes brilham os olhos de satisfação.
16.5.10
Um Domingo no estádio
11.5.10
Música xlvi)
9.5.10
5.5.10
Madrugada.
Não sei se ando na rua por que não tenho sono, ou se não tenho sono porque ando na rua. Sei que sou um equilibrista de lancil quando ninguém está acordado para reparar, dou piruetas assustadoras e pulos de espantar.
Faço-me amigo de dois cães vadios, que se chegam a mim num murmúrio de fome e se conformam com uma festa dedicada, reconhecendo que, ao contrário daquilo que a vida lhes ensinou sobre as pessoas, eu tenho um grande desprezo por pulgas e primos directos e não me deixo incomodar pelo cheiro a contentor. O vento sopra firme do lado da roulotte de bifanas e desperta-me o estômago que, numa sinfonia de reclamações vigorosas, faz de mim membro ecléctico da matilha dos famintos.
E o Benfica? Apesar de já me pesarem os olhos, ainda tenho conversa para meia hora e, com sorte, para uma Especial com tudo, se faz favor. Depois de descascar nos tripeiros, método infalível para cair em graça nestas paragens sob o viaduto, e de acalmar a fome com a simpatia do senhor Amílcar, noto que Maio chegou ventoso. Dá ano formoso, atira um velho. Ainda desenrasquei umas sobras para os meus novos amigos, que acenam com o rabo enquanto se afastam para o lado mais escuro da rua.
Aqui é madrugada, longa nas horas e curta nas palavras. As conversas são pouco mais que constatações roucas do óbvio de cada um. Apaga-se a luz roxa quando passa o duzentos e sete para a Musgueira.
O sono é das inevitabilidades mais caprichosas que conheço, mas talvez já esteja capaz de se render às evidências da noite. Vamos ver se se decide no caminho para casa, que é curto e encostado às paredes.
21.4.10
Música xliv)
Balão.
Vieram antes do tempo, os mosquitos peganhentos, ou então é a chuva, que se demorou demais e engana a gente. Entram pela janela, que já se vai deixando aberta, e tropeçam em tudo antes de chegar à luz do tecto. Consigo ouvi-los ralhar, bêbados com o cheiro a gente, embrulham-se neles próprios e nos cabelos dos corpos, numa aflição que me desperta mais o nojo que a compaixão. Enxotam-se com paciência, não incomodam tanto como o retesar involuntário dos músculos do pescoço, o esternocleidomastoideu e os seus primos direitos, que reclamam dias mais curtos e menos marrecos. Os livros vão-nos esticando as ideias quase na mesma medida com que nos vão encurvando as costas. Estou cansado.
A rua não tem ninguém. Parece que as pessoas se escondem da noite e, com a pressa, abandonam metade das coisas do dia. Juntam-se dentro das casas, onde há mais luz, como os mosquitos, e vão enjoando, tropeçando, bebendo e ralhando, até o sono os enxotar para a cama. Vejo um balão abandonado, preso ao mundo por um fio, e decido levá-lo comigo.
À espera do metro está um miúdo louco, com umas sapatilhas brilhantes e uma camisola pequena demais. Bate furiosamente com os pés, como que a espantar-se a si mesmo, e a mãe dele suspira, sentada mais abaixo, Guilherme, então?. O desconforto de ambos é evidente, não porque o comportamento do pequeno seja inoportuno ou incomodativo, afinal, a noite está praticamente vazia, mas porque uma qualquer mudança nas rotinas de ambos os trouxe até aqui. A caminho de casa.
O passeio cola debaixo das solas os restos de um jantar que se revoltou à saída do restaurante, faço um contra-ritmo com o chiar dos passos. Finjo que ninguém está a ver e aproveito para animar o serão das viúvas que dormitam tristezas atrás dos vidros, dou dois pulos e duas voltas ao candeeiro, pulo outra vez e bato os calcanhares. Contrariam-se com o mesmo fôlego a corcunda do dia e as mágoas de quem se refugia à janela. Toco à campainha.
Sabe bem ter quem nos espere, ou pelo menos quem nos faça acreditar que somos esperados. Seis ou sete lanços de escadas são seis ou sete saltos. Trago-te uma prenda, recebes-me com um sorriso e pegas no balão, que se estica em direcção à luz do tecto, para junto do único mosquito que deixaste entrar, É dos que sobem!
7.4.10
Música xliii)
6.4.10
Para sempre.
Entretenho-me muito a pensar. Aliás, não sei se é a pensar, que não percebo nada das engrenagens da cabeça, o que faço é passar lembranças como quem projecta, numa parede qualquer, fitas estragadas pela humidade e pelo pó, ando para a frente e para trás e tento ordenar o que se aproveita, adivinhar o que dizem as vozes que se vão desfocando, recordar o tom dos risos. Sustenho a respiração no sussurro dos segredos e nos soluços abafados das lágrimas e paro nas caras das pessoas. Vamos chamar a isso pensar no tempo, para ser mais fácil.
Entretenho-me muito a pensar no tempo em que as pessoas não eram mais que pares de pernas, mais ou menos bem calçadas, mais ou menos familiares, no tempo em que a sanita era um mistério que engolia tudo, candidata improvável a conquistar o lugar do bacio azul, que parecia um carrinho com uns olhos de bambi autocolantes, no tempo em que as nossas mãos eram pequenas de mais para a sede e, nas tardes de sol, só o avô, com as suas mãos escuras de gigante, a cheirar a sabão azul e branco, conseguia segurar água suficiente para a saciar, no tempo em que as horas estavam a mando do sol e a rua a mando da chuva.
Entretenho-me muito a pensar no nosso tempo, das mãos sempre agarradas, como se não se vissem há anos demais, no tempo dos cheiros novos, nossos, que souberam guardar-se na memória, no tempo em que todos os bancos de jardim eram uma boa desculpa para parar e em que redescobrimos o prazer de rebolar na relva, no tempo em que aprendemos a saborear as imperfeições, nos apaixonámos irremediavelmente por elas, no tempo em que deixámos de ter frio de noite.
Entretenho-me muito a pensar no tempo dos nosso pequenos, que ganiam baixinho nas primeiras noites connosco, no tempo em que aproveitavas para chorar com eles as notícias do médico, de que os nossos corpos não iam funcionar nunca, só porque pensavas que eu não podia ouvir, no tempo em que percebeste que enrolar-me em ti com mais força era a minha maneira de chorar, no tempo em que as palavras deixaram de ser necessárias para nos entendermos nos assuntos da alma.
Entretenho-me muito a pensar no tempo em que os nossos pequenos morreram, e os filhotes deles também, em que choravas enquanto semeavas flores para eles, no tempo em que a preguiça já não tinha responsabilidade nenhuma na dificuldade que tinhas em levantar-te de manhã, no tempo em que eu alisei o caminho até à entrada, só porque ia ficar muito mais bonito, apesar de saberes desde o início que era para a cadeira, no tempo em que usaram esse caminho para te levar para sempre, e em que eu fui contigo, mãos agarradas como se não se vissem há anos demais, a apertar com tanta força que me esqueci de olhar para trás.
Depois sentaram-me aqui. Para sempre.
2.4.10
Música xlii)
(sorriso)
23.3.10
Se não fossem eles, não chegava ao chão.
Vezes há em que são pontadas irracionais e persistentes que me perturbam o conforto, outras é um formigueiro fininho que se impõe, meio dormente meio latejante, e me obriga a rever prioridades de arrumação que antes me tinham parecido irrefutáveis. Podias dormir em pé.
Ninguém consegue dormir aqui, independentemente da verticalidade adoptada.
O segundo dedo é magro e comprido como o indicador de uma mão de gente, ou pelo menos de uma que, nascida inteira, se tenha aguentado assim até ser usada para qualquer comparação. É maior que o primeiro, uma raridade anatómica que exibo com orgulho sempre que o calor pede uns chinelos de enfiar. Segundo não me lembro quem, é sinal que sou bom a tomar decisões, parvoíce, portanto, que eu nem sequer acerto no assentar dos pés. Ao menos é engraçado.
Ao menos que sirva para alegrar alguém.
Gosto de estar sossegado, não me apoquento facilmente e até sei esperar as demoras sem impaciência, mas nunca sei onde meter os pés. Escolho sempre mal e acabo invariavelmente por ter de aguentar um qualquer desconforto, por vezes durante pequenas eternidades, o que resulta em protestos físicos visíveis, vermelhidões e suores estranhos, rapidamente atendidos ou firmemente ignorados, dependendo da evolução das circunstâncias. Pára quieto com os pés! Tens de ir fazer xixi?
Desde pequenino que é assim.
É costume, como se sabe, arranjar às regras uma ou outra excepção, e neste meu caso podológico não é diferente. Se foi ou não o acaso que os fez encontrarem-se, isso é matéria para outra noite qualquer, a verdade é que o descanso do guerreiro está no enrolar instintivo, numa fuga ao desamparo e num anúncio certo do fim da jornada, dos teus pés nos meus. Aquece-me os pezinhos.
São tão bonitos os diminutivos, assim ao ouvido.
16.3.10
11.3.10
iPod, Shuffle Mode
10.3.10
9.3.10
Camisola
grande demais para toda a gente,
aparentemente.
Serve para o inverno
e para o verão
e tem de estar sempre à mão.
Se me perguntassem,
eu já sabia,
a minha camisola tinha magia.
É a camisola das memórias,
das cores e dos cheiros,
das viagens e dos pequenos passeios.
É a toalha,
quando calha,
e é a almofada,
quando bem enrolada.
Até de chapéu serviu,
e já fez de cachecol,
aqueceu-me do frio
e tapou-me do sol.
No bolso da frente
dá para guardar
tudo o que quisermos levar,
Já guardou o lanche,
dentro dum saquinho,
e houve um dia
em que escondeu um cãozinho.
A minha camisola era
a minha namorada,
até ao dia em que foi emprestada.
Vestiste-a morena
e salgada do mar
sorriste e disseste
para te abraçar.
Cheiraste-me no carapuço
e nas mangas sem fim,
sorriste outra vez
e beijaste-me enfim.