7.9.10

Dia de Finados

Albano nasceu no dia 2 de Novembro. Nunca a sua família pensou que o dia de nascimento pudesse ser um prenúncio da vida que ele havia de levar.

Ao contrário da maioria dos bebés, Albano nunca chorou por ter fome ou sede, nunca deu gargalhadas com o chocalhar de chaves à frente dos olhos e, durante toda a sua meninice, nunca fez asneiras dignas de registo. Na verdade, ao longo de toda a sua vida nunca fez nada digno de registo. Onde quer que estivesse passava despercebido, e só quem o visse, sentado e calado, dava conta de que ele existia.

Na escola aprendera a ler sem fazer barulho, e a fazer contas de somar e subtrair de cabeça, para não ter de pensar alto. Quando chegou a altura de escolher o futuro académico optou por um curso de linguística, com especialização em latim. Escolheu o latim, não por interesse científico, mas porque com uma língua morta o risco de encontrar alguém que a queira usar como via de comunicação é menor.

Depois da formação académica arranjou emprego numa editora especializada em dicionários. Dedicou o resto da sua vida a estudar a etimologia das palavras começadas por .

Não deixou descendência, nunca escreveu um livro nem plantou uma árvore. Do ponto de vista da filosofia oriental pode afirmar-se que não foi um homem realizado.

Teve sempre uma atitude de espectador relativamente à vida, e esta filosofia ganhou ainda mais força quando descobriu a razão pela qual era celebrado o dia 2 de Novembro, o seu dia de anos. A mãe explicara-lhe que o segundo dia do décimo primeiro mês era conhecido como o dia de finados, que em todo o mundo se rezava pelos que tinham morrido e que se lembravam os que já toda a gente esquecera.

A partir desse momento apercebeu-se de que no mesmo dia se recordava o seu nascimento e a morte de outros. Ainda para mais não era uma morte qualquer. Era uma morte anónima, dos que não têm nome. Este facto afectou-o de tal maneira que passou a confundir o seu nascimento com a morte dos que não têm nome. Dentro da sua cabeça, dois acontecimentos passaram a um. Isto levou-o a assumir, ainda em vida, o anonimato da morte celebrada no dia do seu nascimento.

Foi ainda mais longe, e passou a ver, nesta coincidência de datas, uma profecia: havia de morrer no mesmo dia em que nasceu. Para ele era o desfecho lógico da sua vida. Uma vida anónima leva a uma morte anónima, a do dia 2 de Novembro.

Todos os anos, na noite de 1 de Novembro, quando fechava os olhos para dormir, pensava que talvez não mais os voltasse a abrir. Mas este pensamento fatalista não o assustava, e mergulhava num sono do qual poderia nunca mais acordar.

O único pormenor de que se tinha esquecido era que, numa vida anónima e da qual era apenas espectador, não havia ninguém para dar pela sua falta na manhã em que não acordasse. Não havia ninguém para o procurar quando ele deixasse de aparecer. Não havia ninguém para o encontrar morto no seu dia de anos.

2.8.10

Aviso.

A não ser que algum dos desaparecidos sócios do nosso estabelecimento decida escrever por aqui alguma coisa, seja porque o ego ande a precisar de um cafunézinho, ou porque a alma se lhe vai rebentando aos poucos e as respectivas explosões sobraram para o teclado de um computador qualquer, aviso a nossa interminável lista de seguidores que as últimas previsões apontam para baixos níveis de actividade blogueira nos próximos dias. Ou semanas.
Se tiverem dificuldade em lidar com esta ausência, que assim repentina poderá dar origem a desorientações temporárias e situações pontuais de pânico, há sempre a possibilidade de me tentarem encontrar abaixo do paralelo trinta e oito. Até um dia destes.

30.7.10

Música xlxi)

Bem-vindos às noites de verão, intermináveis, abundantemente regadas com histórias inacreditáveis e bebidas geladas. Bem-vindos às estradas de verão, quentes que queimam e mais compridas que a imaginação. Bem-vindos ao tempo das coisas que deviam durar para sempre.

20.7.10

Joana.

Deve ter sido o cheiro do quarto. Ou a cor da paisagem das janelas. Ontem lembrei-me de ti. No início nem foi lembrança, foi como se nunca tivesses existido. Foi como quem relê um livro esquecido e recorda vagamente que já tinha imaginado, a conta gotas, todos aqueles lugares. Todos aqueles sorrisos. Depois veio tudo de uma vez.

Cantavas com a tua imitação de sotaque baiano as músicas da rádio, muito afinadinha, e pedias-me que te ensinasse os acordes. Cheiravas sempre a protector solar e nunca me negavas um sorriso, a mim, o rei dos tolos. Abraçavas-me por trás sem pedir licença e ignoravas a minha indiferença. Tinhas um coração grande de mais no peito, grande demais para mim, pelo menos.

Nunca te deixaste cair, apesar dos dias insistirem em seguir a regra, apesar de eu continuar a arranjar maneira de te afogar as ideias em seco. Mandavas-me bilhetes a dizer que era eu que te dava asas e desenhavas joaninhas para explicar melhor. Não guardei nenhum.

Depois veio o vendaval que foi e eu percebi tudo. Levaram-te o coração, as asas e a música. Nunca me perdoei, sabes? Tu ainda me agradeceste, com os olhos a brilhar, e eu a saber que era tarde demais para te valer. Para nos valer.

Acabou por ser o medo a entalar-me as palavras na garganta e a arrumar-te no fundo da gaveta das recordações. Sempre o mesmo medo.

12.7.10

Música xlx)

Outra cantiga prá gente, que as regras sou eu que as faço e esses Brasís merecem quatro minutinhos de atenção.

4.7.10

Música xlix)

Por aqui já não há certezas no que à numeração romana diz respeito. Contando que ninguém atente muito a isso, que é assunto de tão inqualificável irrelevância que ainda tenho sérias dúvidas se será merecedor da quantidade de linhas que se vão adivinhando, vou continuar com o sistema, que tem a quantidade certa de pretensão pseudo-intelectual para aquilo que a casa está habituada a gastar. Posto isto, que como já foi ensaiado, não tem mais interesse que a cor do recheio das almofadas do sofá face à sua função maior, que é a de aconchegar a preguiça, vamos à canção, que é o que se quer.

O dia em que morreu Sebastião.

Sebastião sublinhava sempre o significado das soberbas subtilezas da vida que, sabia ele, servia sobretudo para ser saboreada. Defendia democraticamente as delicadas delícias diárias, deixando demorar os doces e desprezando as durezas. Conversava com a calma dos centenários e cultivava, comedido, controvérsias curiosas. Alegrava-o algaraviar alto, entre amigos, e andar ao acaso pelas aleias de árvores da aldeia. Escutava encolhido, escultural, estranhamente entretido e de esgar estreito. Versátil no verbo e vivo de visão, era virtuoso, veemente e vincando de valores e virtudes.
Sebastião segredou num sopro os seu derradeiros dizeres, contando que chegassem para acalmar as angústias de quem esperava estarrecido a morte do mais verdadeiro velho da vida. No dia em que morreu.

26.6.10

Música Portuguesa

Saiu há uns tempos (e aqui uns tempos são já uns anos) uma lei radiofónica. Essa lei obrigava a que se cumprissem quotas de tempo de antena para música portuguesa. Portanto as rádios são obrigadas, quer queiram quer não, a passar música portuguesa.

Isto é a prova do estado de decadência a que chegou a posição de Portugal em relação á sua própria música. Para as rádios a música portuguesa é tão de fugir, que é preciso sair uma lei para que seja tocada.

Mas o problema não está nas rádios, está nessa posição tão tipicamente portuguesa de que em Portugal não há nada de jeito, que tudo o que é bom vem de fora e que cantar em português é foleiro e / ou parolo. Não quero com isto dizer que tudo o que há em Portugal é espectacular e melhor que no resto do mundo, mas em relação á música há muitos projectos interessantes que têm uma publicidade e visibilidade miseráveis.

A grande maioria dos consumidores de música é consumidor de música que vem de fora. Comprar um CD de algum português? Tá quieto! Mesmo as grandes lojas apostam muito pouco em grupos novos. Quando decidem promover um CD / DVD, promovem quem já tem nome feito, que a bem dizer são quem precisa menos. Os Xutos & Pontapés ou o Rui Veloso já passaram a fase em que precisavam de outdoors gigantes e de publicidade agressiva para vender...

Ainda assim, acho que o panorama está a melhorar. Cada vez mais aparecem projectos interessantes e têm vindo a aparecer editoras pequenas que, a pouco e pouco e remando contra a maré, vão ganhando o seu espaço.

Talvez, em parte, isto se deva á lei que falei acima, não o nego. A única coisa que aponto é que a vontade de apostar em música portuguesa deveria ser voluntária e não imposta por lei. Talvez um dia aí cheguemos...

24.6.10

Maria Clementina

Tenho cá para mim que se anda a criar uma nova tendência na música portuguesa. É um género assim mais popularucho, que tem alguns representantes muito interessantes - leia-se B-Fachada, Deolinda, João Coração et al.

Com sorte a tendência anterior já passou de moda, e os seus representantes podem arranjar um day-job - leia-se Mikael Carreira, Angélico Vieira, Anjos et al.

Os sumos B! (passo a publicidade) pediram a alguns artistas para comporem umas canções que acompanhassem a publicidade ao novo B! Clementina. Estes artistas juntaram-se e o resultado foi este.

O Projecto Maria Clementina são quatro pessoas que adoptaram quatro alter-egos - Raquel Menina, Juca Pavico, Enrique Mita e Manuel de Malta. Quem são, por enquanto ainda é segredo. Diz quem sabe que são conhecidos por projectos a solo ou colaborações, e que foram falados durante o último ano e meio.

Dizem que fazem ruralo-pop-incoformado, e realmente o género assenta-lhes bem.

Já agora aceitam-se apostas para quem são as quatro clementinas. As minhas apostas para as duas vozes masculinas são este e este.

11.6.10

Música xlviii)

Podes dizer-me como se chega ao sítio onde tudo está bem bem?

10.6.10

Ainda ando aqui.

Não percebo o que se passa, Catarina. Ainda ontem, nós os dois, sozinhos no teu par de assoalhadas com vista para o metro de Odivelas, nós os dois no teu sofá verde e velho com buracos nas braçadeiras e cheiro a rebuçado, nós os dois num carrossel de risos e tremores, de cócegas e amores, nós os dois tão felizes e sem tempo contado. Não percebo o que se passa, Catarina. Ainda ontem, nós os dois, e tu tão feliz comigo, a contares a tua tarde enquanto empurravas um macarrão riscado pelo prato, e eu tão feliz contigo, a soprar-te bolas de sabão enquanto lavava os copos. Não percebo o que se passa Catarina. Ainda ontem, nós os dois, a fazer planos para o fim do mês, eu que queira ir para a praia e tu que querias ir ao Gerês, e agora nem me falas, e parece que não me vês. Não percebo o que se passa, Catarina. Ainda ontem era dia cinco, como é que no teu calendário já é vinte e três? Porque é que estás assim de preto, Catarina, que ficas tão linda de flores, ou às bolinhas? Porque é que não me abriste a porta quando chamei e como é que entrei? Não percebo o que se passa, Catarina!

23.5.10

2/7

Os oboés dão o tom. Lá maior. O maestro volta-se para a direita e, lentamente, com um golpe de pulso, acena aos violoncelos. Estes expõem o tema. Apenas as linhas gerais, o fio condutor.

O resto da orquestra está suspensa, muda. Os violinos, impacientes, preparam o arco. Encostam-no às cordas. Com o apontar da batuta, estas vibram em coro.

O céu começa a fechar-se. As nuvens juntam-se em cores de tempestade.

A primeira secção de violinos recomeça o tema inicial sobre os graves dos violoncelos. O tempo é mais rápido e o instrumento apresenta oscapriccios próprios.

Entra agora a segunda secção. Complementa a primeira. Enche, a contraponto, os espaços que esta vai deixando vazios. Sobem os arcos de uma, descem os da outra.

O ar começa a escurecer, o vento sente-se. As nuvens, cada vez mais escuras, enrolam-se sobre elas próprias.

O primeiro violino toma o seu lugar. Eleva-se, sozinho, acima do resto. O vibrato agudo, cristalino, sobrepõe-se a qualquer outro som da orquestra. O maestro, com movimentos curtos e precisos, dirige os instrumentos. Com a batuta ordena que os violoncelos subam de intensidade.

Os graves são o suporte para todos os outros sons, são o chão onde caem.

A segunda secção de violinos, regida pelo maestro com gestos secos da mão esquerda, acompanha os violoncelos nesta escalada, num diálogo que, pouco a pouco, vai subindo de volume.

Um a um, os violinos que seguiam o tema acompanham o primeiro na escalada sobre o resto da orquestra. Camada sobre camada, agudo sobre grave, o quadro acabou de ser pintado.

A tempestade desdobra-se impaciente para trás e para a frente.

O céu abre-se em dois com o estrondo dos tímbales. O chão estremece a cada vibração da corda dos contra-baixos. Foge debaixo dos pés.

Um, um dois três, um.

As madeiras rangem, os metais brilham, os arcos retesam-se.

Os violinos, em voo rasante, numa ventania fria, puxam os cabelos de trás do pescoço. Elevam-se no ar, em rodopio, e caem no chão, em estilhaços.

A chuva dos violoncelos cai, numa dança furiosa com o vento. É atirada contra as paredes, contra o tecto, contra o chão.

Os metais polvilham o quadro com reflexos de ouro. Relâmpagos rasgam o ar, iluminando à sua passagem.

Os contra-baixos trovejam, graves, assustadores, a fazer tremer por dentro. As cordas grossas soltam, em estrondos, trovões curtos. Em simultâneo com os relâmpagos. A tempestade atinge o seu pico.

Dois minutos e cinquenta e dois segundos depois já se pode respirar outra vez.

19.5.10

iPod, Shuffle Mode

Para aproveitar este solinho que nestes dias tem dado um ar da sua graça, deixo aqui umas músicas para ouvir em modo cerveja na mão com areia nos dedos.


Baterista dos The Strokes em modo vocalista junta-se a uns amigos e decidem fazer este CD que tresanda a Verão.


É isto que acontece quando o Sr. Roger Waters decide compor num dia solarengo de praia.


Boa música para cantar no carro, com as janelas todas para baixo. Há que partilhar os dotes de cantor de automóvel com quem nos cruzamos na estrada.

Obrigado, e vemo-nos numa praia para caracóis e imperial.

Queimar fitas.

As semanas dos outros já não me dizem respeito. Quinzenalmente, à hora em que a noite começa a sossegar, lembro-me que é dia de escrever para o blogue e é esse o meu calendário. Estou sentado em frente ao computador há dias. Não sei quantas voltas a terra deu sobre si mesma, no seu baile de enganar parvos, nem quantas horas de jantar pulei, não me lembro se mudei de roupa, ou sequer de lugar. Aparentemente, a minha vida descobriu a sua vocação de pescadinha de rabo na boca e resolveu começar a devorar-se a si mesma, enquanto espera que venham devorá-la de vez.
Talvez não seja talhado para isto de ser estudante, ou talvez seja só irremediavelmente romântico, mas ainda guardo alguma esperança, escondida, para não me envergonhar, de encontrar alguém, neste caminho que é a universidade, que ainda se lembre do tempo em que os professores ensinavam, os alunos aprendiam e o mundo crescia.
Lembraram-me recentemente que já devia ter acabado o curso, que já devia estar a andar para a frente com esse negócio de ser gente, estenderam-me, meio a medo, meio ao desafio, fitas de tecido colorido, Escreve qualquer coisa, onde deixei, invariavelmente, uma versão escrita daquilo que é um abraço forte, ao invés do tradicional carimbo de notificação de entrada numa "nova fase" e da muito gasta "boa sorte".
Estou muito feliz por todos aqueles que souberam encontrar combustível para a alma no meio da rebaldaria dos dias de estudante, aqueles que souberam agarrar-se aos objectivos traçados e que agora, chegados ao fim, lhes brilham os olhos de satisfação.
Um exercício lógico trivial colocar-me-á, provavelmente, na gaveta dos pequeninos, ou na dos mandriões, ou na dos coitados, ou até na dos menos espertos. Não faço questão de me ver ao espelho aqui e agora, mas supondo que tenho uma extraordinária capacidade de me observar do lado de fora, como quem observa macaquinhos no zoo e perde a tarde toda a contemplar os seus embaraços e as suas vergonhas, eu diria que apenas ando a adiar o dia em que, Finalmente, chegarei ao fim do meu caminho de estudante. Não porque goste muito disto, nada disso, só não quero confirmar as suspeitas que o meu subconsciente subversivo vai gritando à consciência nas alturas mais complicadas, de que isto é tudo uma enorme perda de tempo.

16.5.10

Um Domingo no estádio

Sou um grande adepto de futebol. Algumas vezes, atrevo-me até a dizer que a maioria das vezes, mais adepto de futebol em si que do meu próprio clube. Enquanto fui crescendo, nunca o vi a ganhar nada de grande relevo, merecedor de festa rija. Só o vi mesmo a ganhar dois campeonatos. Mas enfim, não se muda de clube. E talvez por isto não tenha uma grande veia de fãnzice clubística, o que me torna um frequentador pouco assíduo de estádios.

Prefiro ver os jogos em casa. Mesmo que, e isto raramente falha, alguém (geralmente do sexo feminino) se ponha de pé em frente da televisão em alturas críticas. Parece que escolhem. Durante um pontapé de baliza, está tudo sentado e quietinho. Enquanto o jogo está parado, idem. Mas agora quando é um contra-ataque perigoso, com grandes hipóteses de dar em golo, é fatal como o destino que alguém se vai pôr de pé, e tapar o fim da jogada.

Ou que muitas vezes ver o jogo na televisão implique ouvir comentadores com uma vaga noção de como realmente se comenta um jogo. A época dos dois homens a formar um triângulo já passou. Também já há nenhum que se exalte com as jogadas emocionantes. Agora são todos analistas. Imagino-os, durante os jogos, a passear na cabina dos comentadores com um dispositivo 3G topo de gama, que permite arrastar bolinhas que passam por jogadores. Falam todos com uma voz serena e hipnotizante, e só querem saber das linhas intermédias das transições defesa-ataque. Já não há gritos, saltos e enervamentos.

Mesmo assim, tendo visto nos últimos anos todos os jogos em casa, sempre tive um fascínio pelo estádio de futebol. E esse fascínio prende-se muito mais com a atmosfera em redor do jogo, que com o futebol em si.

Nunca fui ver nenhum jogo em que tenha saído do estádio a dizer 'Sim senhor, que grande espectáculo de bola'. Mas saí, isso sim, a dizer 'Sim senhor, que grande leque de palavrões que aquele homem ao meu lado sabia'. Todos os palavrões que gritei enquanto fui crescendo, aprendi-os num estádio de futebol. Não fazia a menor ideia do que significavam, mas como me diziam sempre que o que se ouvia ali não se repetia a mais ninguém, imaginava que não fosse coisa boa.

Outro ponto alto de se ver um jogo num estádio (sim, porque aprender palavrões é um ponto alto para qualquer rapaz) é o pré-jogo. O caminho, desde o carro/metro, até à porta de entrada. As pessoas que, 3 horas antes do jogo, já não têm no coração as cores do clube, mas um rótulo de cerveja. Os velhos que nunca largam o rádio de mão, nem mesmo durante o jogo. As roulotes, com as suas chapas para fritar que não são limpas desde que o estádio foi inaugurado, que vendem o típicokit courato + mini. A hola, obrigatória em qualquer jogo. Os olés para o adversário. As frases que se dizem ao árbitro e aos ódios de estimação da outra equipa. Tudo isto faz parte do encanto de se ver um jogo ao vivo.

E ainda assim, não me lembro de última vez que fiz tudo isto. Presumo que a preguiça de sair de casa para ir ver o que, a maioria das vezes, é um mau jogo de futebol fale mais alto. O que é estranho, porque de tudo o que envolve ver um jogo no estádio, o jogo em si é quase sempre o menos interessante.

PS - no que me toca, deixei para aqui acumular teias de aranha e poeira em todo o lado. Peço desculpa aos nossos 3 leitores (gostaria de adjectivar com 'assíduos', mas acho que seria esticar a corda). Agora estou de volta do interregno, e espero que para ficar.

11.5.10

Música xlvi)

Quebramos as regras e empilhamos coisas doces umas nas outras, nunca fomos grandes fãs de dietas.

5.5.10

Madrugada.

Não sei se ando na rua por que não tenho sono, ou se não tenho sono porque ando na rua. Sei que sou um equilibrista de lancil quando ninguém está acordado para reparar, dou piruetas assustadoras e pulos de espantar.

Faço-me amigo de dois cães vadios, que se chegam a mim num murmúrio de fome e se conformam com uma festa dedicada, reconhecendo que, ao contrário daquilo que a vida lhes ensinou sobre as pessoas, eu tenho um grande desprezo por pulgas e primos directos e não me deixo incomodar pelo cheiro a contentor. O vento sopra firme do lado da roulotte de bifanas e desperta-me o estômago que, numa sinfonia de reclamações vigorosas, faz de mim membro ecléctico da matilha dos famintos.

E o Benfica? Apesar de já me pesarem os olhos, ainda tenho conversa para meia hora e, com sorte, para uma Especial com tudo, se faz favor. Depois de descascar nos tripeiros, método infalível para cair em graça nestas paragens sob o viaduto, e de acalmar a fome com a simpatia do senhor Amílcar, noto que Maio chegou ventoso. Dá ano formoso, atira um velho. Ainda desenrasquei umas sobras para os meus novos amigos, que acenam com o rabo enquanto se afastam para o lado mais escuro da rua.

Aqui é madrugada, longa nas horas e curta nas palavras. As conversas são pouco mais que constatações roucas do óbvio de cada um. Apaga-se a luz roxa quando passa o duzentos e sete para a Musgueira.

O sono é das inevitabilidades mais caprichosas que conheço, mas talvez já esteja capaz de se render às evidências da noite. Vamos ver se se decide no caminho para casa, que é curto e encostado às paredes.

21.4.10

Música xliv)

Meteram-me aqui dentro e não consigo sair.

Balão.

Vieram antes do tempo, os mosquitos peganhentos, ou então é a chuva, que se demorou demais e engana a gente. Entram pela janela, que já se vai deixando aberta, e tropeçam em tudo antes de chegar à luz do tecto. Consigo ouvi-los ralhar, bêbados com o cheiro a gente, embrulham-se neles próprios e nos cabelos dos corpos, numa aflição que me desperta mais o nojo que a compaixão. Enxotam-se com paciência, não incomodam tanto como o retesar involuntário dos músculos do pescoço, o esternocleidomastoideu e os seus primos direitos, que reclamam dias mais curtos e menos marrecos. Os livros vão-nos esticando as ideias quase na mesma medida com que nos vão encurvando as costas. Estou cansado.

A rua não tem ninguém. Parece que as pessoas se escondem da noite e, com a pressa, abandonam metade das coisas do dia. Juntam-se dentro das casas, onde há mais luz, como os mosquitos, e vão enjoando, tropeçando, bebendo e ralhando, até o sono os enxotar para a cama. Vejo um balão abandonado, preso ao mundo por um fio, e decido levá-lo comigo.

À espera do metro está um miúdo louco, com umas sapatilhas brilhantes e uma camisola pequena demais. Bate furiosamente com os pés, como que a espantar-se a si mesmo, e a mãe dele suspira, sentada mais abaixo, Guilherme, então?. O desconforto de ambos é evidente, não porque o comportamento do pequeno seja inoportuno ou incomodativo, afinal, a noite está praticamente vazia, mas porque uma qualquer mudança nas rotinas de ambos os trouxe até aqui. A caminho de casa.

O passeio cola debaixo das solas os restos de um jantar que se revoltou à saída do restaurante, faço um contra-ritmo com o chiar dos passos. Finjo que ninguém está a ver e aproveito para animar o serão das viúvas que dormitam tristezas atrás dos vidros, dou dois pulos e duas voltas ao candeeiro, pulo outra vez e bato os calcanhares. Contrariam-se com o mesmo fôlego a corcunda do dia e as mágoas de quem se refugia à janela. Toco à campainha.

Sabe bem ter quem nos espere, ou pelo menos quem nos faça acreditar que somos esperados. Seis ou sete lanços de escadas são seis ou sete saltos. Trago-te uma prenda, recebes-me com um sorriso e pegas no balão, que se estica em direcção à luz do tecto, para junto do único mosquito que deixaste entrar, É dos que sobem!



7.4.10

Música xliii)

Espera. Mesmo que à tua volta tudo se empenhe em empurrar-te numa corrida louca. O segredo dos sorrisos está na audácia de ousar o improvável.

6.4.10

Para sempre.

Sentaram-me aqui para sempre, agora que estou velho.
Entretenho-me muito a pensar. Aliás, não sei se é a pensar, que não percebo nada das engrenagens da cabeça, o que faço é passar lembranças como quem projecta, numa parede qualquer, fitas estragadas pela humidade e pelo pó, ando para a frente e para trás e tento ordenar o que se aproveita, adivinhar o que dizem as vozes que se vão desfocando, recordar o tom dos risos. Sustenho a respiração no sussurro dos segredos e nos soluços abafados das lágrimas e paro nas caras das pessoas. Vamos chamar a isso pensar no tempo, para ser mais fácil.
Entretenho-me muito a pensar no tempo em que as pessoas não eram mais que pares de pernas, mais ou menos bem calçadas, mais ou menos familiares, no tempo em que a sanita era um mistério que engolia tudo, candidata improvável a conquistar o lugar do bacio azul, que parecia um carrinho com uns olhos de bambi autocolantes, no tempo em que as nossas mãos eram pequenas de mais para a sede e, nas tardes de sol, só o avô, com as suas mãos escuras de gigante, a cheirar a sabão azul e branco, conseguia segurar água suficiente para a saciar, no tempo em que as horas estavam a mando do sol e a rua a mando da chuva.
Entretenho-me muito a pensar no nosso tempo, das mãos sempre agarradas, como se não se vissem há anos demais, no tempo dos cheiros novos, nossos, que souberam guardar-se na memória, no tempo em que todos os bancos de jardim eram uma boa desculpa para parar e em que redescobrimos o prazer de rebolar na relva, no tempo em que aprendemos a saborear as imperfeições, nos apaixonámos irremediavelmente por elas, no tempo em que deixámos de ter frio de noite.
Entretenho-me muito a pensar no tempo dos nosso pequenos, que ganiam baixinho nas primeiras noites connosco, no tempo em que aproveitavas para chorar com eles as notícias do médico, de que os nossos corpos não iam funcionar nunca, só porque pensavas que eu não podia ouvir, no tempo em que percebeste que enrolar-me em ti com mais força era a minha maneira de chorar, no tempo em que as palavras deixaram de ser necessárias para nos entendermos nos assuntos da alma.
Entretenho-me muito a pensar no tempo em que os nossos pequenos morreram, e os filhotes deles também, em que choravas enquanto semeavas flores para eles, no tempo em que a preguiça já não tinha responsabilidade nenhuma na dificuldade que tinhas em levantar-te de manhã, no tempo em que eu alisei o caminho até à entrada, só porque ia ficar muito mais bonito, apesar de saberes desde o início que era para a cadeira, no tempo em que usaram esse caminho para te levar para sempre, e em que eu fui contigo, mãos agarradas como se não se vissem há anos demais, a apertar com tanta força que me esqueci de olhar para trás.
Depois sentaram-me aqui. Para sempre.




2.4.10

Música xlii)

Enfia a carapuça, que hoje é o teu dia. Ninguém.
(sorriso)

23.3.10

Se não fossem eles, não chegava ao chão.

Os meus pés não têm lugar definitivo. É regra. Eventualmente, acabo por os arrecadar da melhor forma que me ocorre, convencido que é perfeita e definitiva, mas dois minutos bastam para me provar o quão enganado eu posso estar em relação aos ângulos certos. São grandes demais, as certezas e os pés.
Vezes há em que são pontadas irracionais e persistentes que me perturbam o conforto, outras é um formigueiro fininho que se impõe, meio dormente meio latejante, e me obriga a rever prioridades de arrumação que antes me tinham parecido irrefutáveis. Podias dormir em pé.
Ninguém consegue dormir aqui, independentemente da verticalidade adoptada.
O segundo dedo é magro e comprido como o indicador de uma mão de gente, ou pelo menos de uma que, nascida inteira, se tenha aguentado assim até ser usada para qualquer comparação. É maior que o primeiro, uma raridade anatómica que exibo com orgulho sempre que o calor pede uns chinelos de enfiar. Segundo não me lembro quem, é sinal que sou bom a tomar decisões, parvoíce, portanto, que eu nem sequer acerto no assentar dos pés. Ao menos é engraçado.
Ao menos que sirva para alegrar alguém.
Gosto de estar sossegado, não me apoquento facilmente e até sei esperar as demoras sem impaciência, mas nunca sei onde meter os pés. Escolho sempre mal e acabo invariavelmente por ter de aguentar um qualquer desconforto, por vezes durante pequenas eternidades, o que resulta em protestos físicos visíveis, vermelhidões e suores estranhos, rapidamente atendidos ou firmemente ignorados, dependendo da evolução das circunstâncias. Pára quieto com os pés! Tens de ir fazer xixi?
Desde pequenino que é assim.
É costume, como se sabe, arranjar às regras uma ou outra excepção, e neste meu caso podológico não é diferente. Se foi ou não o acaso que os fez encontrarem-se, isso é matéria para outra noite qualquer, a verdade é que o descanso do guerreiro está no enrolar instintivo, numa fuga ao desamparo e num anúncio certo do fim da jornada, dos teus pés nos meus. Aquece-me os pezinhos.
São tão bonitos os diminutivos, assim ao ouvido.

16.3.10

Música xli)

Ahah! Boas vibrações, só pra ti.

11.3.10

iPod, Shuffle Mode

Aqui seguem mais uns pózinhos de perlim-pim-pim que me têm feito companhia nos últimos tempos.


Recomenda-se para dias chuvosos e cinzentos. Não esta em particular, o CD todo faz bem esse papel.


Prevê-se um grande álbum novo.


De longe o melhor concerto a que assisti. Apesar de não terem tocado esta...

10.3.10

Música xl)

Temo-nos uns outros, grosso modo, ou coisa que o valha.

9.3.10

Camisola

Tenho uma camisola
grande demais para toda a gente,
aparentemente.

Serve para o inverno
e para o verão
e tem de estar sempre à mão.

Se me perguntassem,
eu já sabia,
a minha camisola tinha magia.

É a camisola das memórias,
das cores e dos cheiros,
das viagens e dos pequenos passeios.

É a toalha,
quando calha,
e é a almofada,
quando bem enrolada.

Até de chapéu serviu,
e já fez de cachecol,
aqueceu-me do frio
e tapou-me do sol.

No bolso da frente
dá para guardar
tudo o que quisermos levar,

Já guardou o lanche,
dentro dum saquinho,
e houve um dia
em que escondeu um cãozinho.

A minha camisola era
a minha namorada,
até ao dia em que foi emprestada.

Vestiste-a morena
e salgada do mar
sorriste e disseste
para te abraçar.

Cheiraste-me no carapuço
e nas mangas sem fim,
sorriste outra vez
e beijaste-me enfim.

5.3.10

Música xxxix)

Mudava-me para perto do mar, num daqueles sítios onde não é sempre verão nem sempre inverno, e abria um bar, com uma bóia na parede, chão cor-de-vinho e janelas comidas do sal.