Sempre odiei a chamada música clássica. Durava mais que quatro minutos e não tinha ninguém a cantar em inglês e / ou a martelar numa guitarra. Não percebia onde estava o fascínio. Ainda para mais, tudo aquilo soava a gente morta, gravado na altura em que o mundo ainda era a preto e branco. Pelo outro lado, as músicas em inglês de quatro minutos que ouvia na Rádio Nostalgia só podiam ser tocadas por pessoas vivas e ainda aí para as curvas. Só mais tarde é que vim a saber que em 1997 já tinham morrido o Elvis Presley, o John Lennon e o Freddie Mercury.
Até que um dia, durante um zapping e a prestar pouca atenção ao que ia aparecendo, vi por acaso um filme sobre a vida do Beethoven. Não vou dizer que o filme era de segunda categoria, porque seria ofensivo para os outros que se incluem nessa classificação. Era de terceira para baixo. E apesar do argumento ser mau e dos actores parecerem saídos das sobras de um casting para uma novela mexicana de hora de almoço, foi aí que mudei a minha opinião em relação à música clássica.
A partir daí iniciei a minha exploração desse universo, começando pelas obras mais óbvias e mais fáceis (geralmente as que enchem CD's com nomes como 'Classical Music for People Who Hate Classical Music', 'Classical Chill Out' ou ainda 'Classical For Beginners'), e fui seguindo para o que me recomendavam ou ia descobrindo por conta própria. E nestes seis anos ouvi tudo o que me deram para as mãos - sonatas, concertos para vários solistas, sinfonias, obras diversas - passando por vários compositores e por várias épocas.
Isto não fez de mim um entendido mas sim um grande apreciador. Nunca me refiro a uma obra dizendo que é boa ou má, classificação que implica necessariamente conhecimento técnico / teórico, mas sim em relação ao meu gosto pessoal. Por isto mesmo é possível que o que vou dizer abaixo seja, para alguém minimamente entendido no assunto, um enorme disparate ou uma constatação básica de um facto mais que conhecido. Mas aí vai...
Gosto de olhar para a evolução da música como uma árvore: tem as suas raízes, o seu princípio (há 100, 1000, 100000 anos?, deixo o número para os entendidos), e ao longo do tempo surgem ramificações que se entrelaçam, umas mais outras menos, entre si, mas tudo vem de uma fonte comum, e cada 'andar' novo da árvore é moldado e tem um pouco dos 'andares' anteriores.
Quero com isto dizer que, ao longo do tempo, a música foi evoluindo, e a partir do que era conhecido na altura foram criados novos géneros, formas e estilos. Algumas dessas mutações são as ramificações de que falei acima, que crescem numa dada altura, mas eventualmente o crescimento pára sem dar origem a ramos novos.
Por isto é possível ouvir em música moderna (ou semi - moderna) ecos muito mais antigos. E no caso que eu vou referir, com 200 anos de diferença.
Alguns andamentos de sinfonias e concertos, na situação a que me refiro são do período romântico, ficam no ouvido devido à sua simplicidade e à repetição da sua melodia. Ouve-se uma vez, e é logo decorada. São facilmente assobiáveis. Basta ouvir os três primeiros minutos dos exemplos abaixo para perceber isto.
Esta simplicidade de melodia foi transportada para a música mais popularizada na segunda metade do século XX, especialmente rock e blues. Isto é facilmente observável pelas guitarras destes géneros - aqui o termo popularizou-se como riff. A linha da melodia é simples e repetitiva, criando o mesmo efeito que os dois andamentos acima. E tal como estes, as músicas abaixo tornam-se facilmente assobiáveis.
Estes são apenas alguns exemplos que achei que ilustravam muito bem a ideia que queria transmitir. Podia ter referido muitas outras obras: o 1º andamento do concerto para violino em Mi Menor, de Mendelssohn, uma passagem do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky - isto nas obras pré-século XX. No pós-século XXI: Deep Purple - Smoke on the Water, The Rolling Stones - Satisfaction.
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